Punit PARANJPE/AFP
Punit PARANJPE/AFP

EUA descartam remessa de doses a qualquer país, após imprensa local cogitar envio ao Brasil

Duas autoridades do governo americano indicaram que a administração pretende resolver primeiro a situação doméstica, para só depois dividir doses com outras nações

Beatriz Bulla / Correspondente, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2021 | 17h00
Atualizado 12 de março de 2021 | 20h39

WASHINGTON - O governo americano descartou nesta sexta-feira, 12, a possibilidade de compartilhar com outros países as doses excedentes da vacina contra covid-19 da AstraZeneca, que não estão em uso no país. Duas autoridades do governo americano indicaram que o presidente Joe Biden pretende resolver primeiro a situação doméstica, para então dividir imunizantes com outros países.

Em entrevista coletiva, a porta-voz da presidência, Jen Psaki, disse que a avaliação do presidente Biden é de que sua primeira obrigação é responder à crise dentro do país, apesar de desejar colaborar com outras nações. "É um equilíbrio complicado", disse Psaki.

"Queremos ter certeza de que temos a flexibilidade máxima e estamos super fornecidos e super preparados e que temos a capacidade de fornecer vacinas, as mais eficazes, para o público americano. Ainda há 1.400 pessoas morrendo em nosso país a cada dia e precisamos nos concentrar em resolver isso", disse Psaki. 

Os EUA ainda não possuem autorização para uso emergencial da vacina da Astrazeneca, que está na terceira fase de estudos nos país. O jornal The New York Times revelou que há pedidos de países, endossados pela própria farmacêutica, para que os EUA enviem as doses adquiridas do imunizante aos que já podem aplicá-las, como o Brasil.

"Nós entendemos que outros governos entraram em contato com o governo americano para falar sobre a doação das doses da AstraZeneca, e pedimos ao governo americano para que considere esses pedidos", afirmou ao jornal americano Gonzalo Viña, porta-voz do laboratório.

A vacina da AstraZeneca em parceria com a Universidade de Oxford foi a principal aposta do governo federal brasileiro e já teve o uso autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Os EUA têm 30 milhões de doses do imunizante armazenadas, mas não podem aplicá-las nos braços dos americanos antes do fim da fase de testes e da posterior análise pela FDA, a agência que regulamenta alimentos e medicamentos nos EUA. 

Em declarações públicas, no entanto, o governo Biden sinalizou que prefere manter a cautela e guardar as doses neste momento. "Houve pedidos em todo o mundo, é claro, de vários países que solicitaram doses dos Estados Unidos. Não fornecemos doses do governo dos EUA a ninguém, isso não é sobre a Europa", afirmou a porta-voz, que havia sido especificamente questionada sobre o eventual compartilhamento de doses da vacina com os países europeus.

Mais cedo, o responsável pela força tarefa da Casa Branca para resposta à pandemia, Jeff Zients, afirmou que os EUA possuem um "pequeno estoque" de imunizantes da AstraZeneca. A ideia, segundo ele, é manter o estoque para que, se aprovada para uso, a vacina possa ser destinada aos americanos "o mais rápido possível".

A avaliação está alinhada com o que o próprio Biden afirmou na última quarta-feira, quando disse que doses suplementares poderiam ser destinadas a outros países após a vacinação da população americana. "Vamos começar garantindo que os americanos sejam atendidos primeiro, mas depois tentaremos ajudar o restante do mundo", afirmou o presidente dos EUA.

Segundo fonte do Departamento de Estado, os EUA planejam desenvolver um plano para destinar o excedente de vacinas aos países necessitados "assim que houver oferta suficiente" para o próprio país. O compartilhamento pode ser feito através do Covax Facility, o consórcio da Organização Mundial da Saúde (OMS) para promover o acesso equitativo às doses. 

O governo já adquiriu mais doses do que precisa para vacinar toda a população. A previsão é que até o fim de maio haja vacina para todos os americanos elegíveis -- pouco mais de 260 milhões. Países têm requisitado doses à Casa Branca e mesmo dentro do governo há quem defenda que imunizantes sem uso imediato sejam destinados a aliados, como forma de se contrapor à "diplomacia da vacina" adotada por adversários como China e Rússia.

Mas as autoridades de saúde dos EUA têm dito que é necessário reservar mais doses do que o necessário para uma primeira primeira leva de imunização de toda a população, pois ainda não se sabe por quanto tempo a vacina previne o desenvolvimento da covid-19. A ideia é manter doses reservadas para caso seja necessário vacinar novamente os americanos dentro de alguns meses, especialmente diante do surgimento de novas cepas do coronavírus. 

Nesta sexta-feira, sob pressão diante das notícias sobre o estoque de vacinas da AstraZeneca sem previsão de uso, os EUA adotaram uma nova estratégia sobre colaboração global com a distribuição de doses. O país anunciou uma parceria com Japão, Índia e Austrália para financiar 1 bilhão de doses de vacina contra covid-19 para o Sudeste Asiático. O objetivo é conter a influência da China na região e acelerar a vacinação local, com financiamento de americanos e japoneses e produção feita pelos indianos. A distribuição será organizada pela Austrália.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.