U.S. National Archives via The New York Times
U.S. National Archives via The New York Times

EUA desenterram história esquecida de crianças indígenas forçadas a viver em internatos

Descoberta de restos mortais de menores indígenas em instituições no Canadá estimulam governo americano a encarar o próprio passado

Rukmini Callimachi, The New York Times, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2021 | 20h00

DURANGO, Colorado - O último dia em que Dzabahe se lembra de rezar como seus ancestrais foi numa manhã dos anos 50, quando foi levada para o internato. Aos primeiros raios de sol, ela agarrou uma pequena bolsa e correu em direção ao deserto, para um ponto em frente ao sol nascente para borrifar o taa dih’deen - ou pólen de milho - nas quatro direções, honrando o novo dia.

Poucas horas depois de chegar à escola, ordenaram que não falasse navajo, sua própria língua. A saia de couro costurada pela mãe e os mocassins de contas foram levados e embrulhados em plástico, como lixo.

Deram-lhe um vestido para usar e cortaram seu longo cabelo - algo tabu na cultura Navajo. Antes de ser mandada para o dormitório, mais uma coisa lhe foi tirada: seu próprio nome.

"Você tem um sistema de crenças. Você tem um estilo de vida já adotado", disse Bessie Smith, agora com 79 anos, que continua a usar o nome que lhe foi dado no antigo internato no Arizona. "E então isso lhe é tirado de forma casual", disse. "É como se você fosse violado."

As recentes descobertas de covas sem identificação em escolas para crianças indígenas no Canadá, administradas pelo governo - 215 na Colúmbia Britânica, mais 750 em Saskatchewan - vieram à tona como um pesadelo há muito tempo esquecido.

Mas, para muitos indígenas no Canadá e nos Estados Unidos, o pesadelo nunca foi esquecido. Em vez disso, as descobertas são um lembrete de quantos nativos americanos são resultado de um experimento de separação forçada de crianças de suas famílias e cultura. Muitos ainda lutam para entender quem foram e quem são.

No século e meio em que o governo dos Estados Unidos administrou internatos para nativos americanos, centenas de milhares de crianças foram alojadas e educadas em uma rede de instituições criada para "civilizar os selvagens". Na década de 1920, estima-se que quase 83% das crianças nativas americanas em idade escolar frequentavam essas escolas.

"Quando as pessoas fazem coisas quando você está crescendo, isso te afeta espiritual, física, mental e emocionalmente", disse Russell Box Sr., um membro da tribo Ute do Sul que aos 6 anos foi enviado a um internato no sudoeste do Colorado. "Não podíamos falar nossa língua, não podíamos cantar nossas orações", disse. "Talvez seja por isso que eu não cante até hoje."

A descoberta dos corpos no Canadá estimulou a secretária do Interior, Deb Haaland, a primeira nativa americana a chefiar o departamento que antigamente administrava os internatos nos Estados Unidos - e ela mesma uma neta de pessoas forçadas a frequentá-los -, a anunciar que o governo faria buscas nos terrenos de antigas instalações para identificar os restos mortais de crianças.

Não há dúvidas de que muitas crianças morreram nessas escolas do lado americano da fronteira. Só na semana passada, nove crianças Lakota mortas no internato federal em Carlisle, Pensilvânia, foram exumadas e enterradas dentro de mantos de búfalo durante uma cerimônia em uma reserva indígena em Dakota do Sul.

Muitas das mortes foram registradas em arquivos federais e em obituários de jornais. Com base no que esses registros indicam, a busca por corpos de outros alunos já está em andamento em duas antigas escolas no Colorado: Grand Junction Indian School, na região central do Colorado, que fechou em 1911, e a Fort Lewis Indian School, fechada em 1910 e reaberta em Durango como Fort Lewis College.

"Coisas horríveis aconteceram em internatos", disse Tom Stritikus, presidente do Fort Lewis College. "É importante esclarecer isso."

História

A ideia de assimilar os nativos americanos por meio da educação remonta ao início da história das colônias. Em 1775, o Congresso Continental aprovou um projeto de lei destinando 500 dólares para a educação da juventude indígena americana.

No final do século XIX, o número de alunos em internatos aumentou de um punhado para 24 mil, e a quantia investida subiu para US$ 2,6 milhões. Ao longo de suas décadas de existência, as escolas foram vistas tanto como uma forma mais barata quanto mais conveniente de lidar com o "problema indígena".

Carl Schurz, secretário do Interior no final do século XIX, argumentou que custava cerca de US$ 1 milhão para matar um nativo americano na guerra, enquanto apenas US$ 1,2 mil para oito anos de escolarização dessas crianças, segundo o relato do historiador David Wallace Adams em "Education for Extinction" (Educação para a Extinção, em tradução livre). "Um grande general disse que o único indígena bom é aquele morto", escreveu o capitão Richard H. Pratt, fundador de um dos primeiros internatos, em 1892. "De certa forma, concordo, mas apenas no seguinte: Que todo o aspecto racial indígena deveria ser morto. Mate o indígena nele e salve o homem."

Sobreviventes descreveram a violência como rotina. Como punição, Norman Lopez foi obrigado a sentar-se no canto da sala por horas na Ute Vocational School, no sudoeste do Colorado, para onde foi mandado por volta dos 6 anos. Quando tentou se levantar, um professor o jogou contra a parede. Depois, o agarrou novamente para arremessá-lo de cabeça no chão, conta. "Achei que fosse parte da norma da escola", disse Lopez, hoje com 78 anos. "Não achei que fosse abusivo."

Na virada do século, surgiu um debate sobre se era melhor "levar a civilização aos indígenas" por meio da construção de escolas em suas terras. Em 1902, o governo concluiu a construção de um internato na reserva Southern Ute em Ignácio, Colorado - a escola que Box e Lopez frequentaram.

O impacto da escola, que foi fechada há décadas, pode ser resumido em duas estatísticas: no século XIX, quando agentes federais pegavam crianças nas reservas, reclamavam que quase não havia adultos falantes de inglês. Hoje, cerca de 30 pessoas de uma tribo de menos de 1,5 mil pessoas - apenas 2% - falam a língua Ute fluentemente, segundo Lindsay J. Box, uma porta-voz dos indígenas.

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