Carlos Barria/Reuters
Carlos Barria/Reuters

EUA dificultam visto para representantes do Partido Comunista Chinês

Novas regras, e a provável retaliação chinesa, serão mais um desafio para o governo do presidente eleito Joe Biden

Paul Mozur and Raymond Zhong, The New York Times

03 de dezembro de 2020 | 08h00

Há menos de um mês do fim da presidência de Donald Trump, o governo americano impôs novas regras para dificultar a concessão de vistos para representantes do Partido Comunista Chinês e suas famílias ingressarem nos Estados Unidos. O gesto de confronto com a China aumenta ainda mais a tensão entre os dois países, tornando mais complexa a missão do presidente eleito Joe Biden.

A nova política, que tem efeito imediato, limita a validade máxima do visto de viagem para os membros do partido e seus familiares a um mês, em uma única entrada, segundo duas pessoas ouvidas sobre o assunto. Um porta-voz do Departamento de Estado disse em um comunicado por e-mail que estava reduzindo a validade dos vistos para membros do partido de 10 anos para um mês.

Anteriormente, os membros do partido, como outros cidadãos chineses, podiam obter vistos de visitante para os Estados Unidos com até 10 anos de duração. As novas medidas não afetam a elegibilidade dos membros do partido para outros tipos de vistos, como imigração, acrescentou uma das fontes ouvidas pelo New York Times.

Em princípio, a mudança de política poderia afetar as viagens de cerca de 270 milhões de pessoas - a China tem cerca de 92 milhões de membros do Partido Comunista - embora, na prática, possa ser difícil determinar quem, além de funcionários de alto escalão, pertence ao partido. As novas regras de visto aumentam o conflito de anos entre os países sobre comércio, tecnologia e muito mais.

De acordo com pessoas familiarizadas com as regras de concessão de vistos, as novas diretrizes permitem que os funcionários dos EUA façam uma determinação sobre o status de alguém em relação ao partido com base em seu pedido de visto e entrevista, bem como no entendimento dos funcionários locais sobre a filiação ao Partido Comunista. Isso pode significar que a política atinge desproporcionalmente os principais líderes empresariais e governamentais da China, em vez dos milhões de membros de escalão inferior que se juntam ao partido para obter uma vantagem em áreas tão variadas como negócios e artes.

Um porta-voz do Departamento de Estado disse que a mudança era parte de uma "ação política, regulatória e de aplicação da lei em andamento em todo o governo dos EUA para proteger nossa nação da influência maligna do PCC".

"Por décadas, permitimos ao PCC acesso livre e irrestrito às instituições e empresas dos EUA, enquanto esses mesmos privilégios nunca foram estendidos gratuitamente aos cidadãos dos EUA na China", acrescentou ele em uma declaração enviada por e-mail.

É provável que as novas regras gerem polêmica em Pequim por terem como alvo o coração da elite governante da China. Mesmo assim, as restrições são mais moderadas do que uma proibição total de viagens de membros do partido, que funcionários da administração Trump discutiram durante o ano.

Essas restrições provavelmente causarão retaliação do governo da China, embora as viagens entre a China e os Estados Unidos já tenham sido extremamente limitadas pela pandemia. Em 2018, quase 3 milhões de cidadãos chineses viajaram para o país.

Adotadas no fim do governo Trump, as novas regras e a provável retaliação chinesa serão mais um desafio para o governo do presidente eleito Joe Biden, que está herdando uma relação EUA-China que está em seu pior estado desde a normalização de relações diplomáticas em 1979.

Embora alguns esperem uma redefinição das relações de Biden, suas opiniões sobre a China se endureceram desde que ele foi vice-presidente do governo Barack Obama. Biden parece estar comprometido em deixar em vigor muitas das medidas duras tomadas pelo governo Trump, incluindo tarifas e restrições à tecnologia chinesa. Ele disse que tratará com rigor as violações dos direitos humanos na China, incluindo detenções em massa na região oeste de Xinjiang. As autoridades chinesas temem que Biden seja mais eficaz na liderança de uma reação global mais ampla contra a China.

Sob Trump, o Departamento de Estado também anunciou outras restrições de visto para grupos de cidadãos chineses específicos. Entre eles estão funcionários responsáveis pelo internamento em massa e vigilância de minorias étnicas muçulmanas na região de Xinjiang, jornalistas que trabalham nos EUA e funcionários considerados responsáveis pela repressão política em Hong Kong.

Em maio, autoridades dos EUA disseram que o governo estava cancelando os vistos de estudantes de graduação ou de nível superior nos Estados Unidos que tinham ligações com certas instituições militares chinesas. Os estudantes chineses constituem o maior grupo de estudantes internacionais do país.

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