EUA divulgarão fotos de abusos contra presos

As imagens, tiradas entre 2001 e 2006 em prisões do Iraque e Afeganistão, ampliarão debate sobre tortura

THE GUARDIAN, O Estadao de S.Paulo

25 de abril de 2009 | 00h00

O governo de Barack Obama está disposto a intensificar o debate sobre tortura divulgando novas fotos mostrando abusos de prisioneiros mantidos pelos EUA no Iraque e Afeganistão.As fotos foram tiradas entre 2001 e 2006 em centros de detenção - não na infame prisão de Abu Ghraib no Iraque -, confirmando que os abusos eram muito mais generalizados do que os EUA estavam preparados para admitir até agora.O governo de George W. Bush havia bloqueado, por diversas vezes, por meio de artifícios legais, os apelos de grupos de defesa dos direitos humanos para liberar as fotos, guardadas pela Divisão de Investigação Criminal do Exército. Mas, na quinta-feira, o governo levantou os obstáculos legais e as fotos provavelmente serão divulgadas em 28 de maio.O Departamento de Justiça inicialmente concordou com a liberação de 21 imagens de abusos em centros de detenção no Iraque e no Afeganistão e outras 23 fotos. Ele informou que "o governo também está processando para liberação um número substancial de outras imagens". Até 2 mil fotos poderiam ser liberadas.Elas são parecidas com as da prisão de Abu Ghraib, que em 2004 chocaram o mundo, causaram um retrocesso no Oriente Médio e acabaram resultando em sentenças de prisão para militares americanos envolvidos nos abusos.Uma autoridade americana comentou que as fotos não eram tão ruins como as de Abu Ghraib, mas "não boas" tampouco. As fotos de Abu Ghraib mostravam prisioneiros iraquianos encapuzados, nus, colocados em situações sexualmente embaraçosas e sendo assediados por cães.O governo Obama está se esforçando para controlar a polêmica formada na semana passada, quando divulgou quatro memorandos da administração Bush detalhando técnicas de tortura aprovadas pela Agência Central de Inteligência (CIA).Obama tem dito que não deseja revolver o passado, temendo que isso desvie a atenção de seu pesado programa de política externa e doméstica. Mas nesta semana ele abriu o caminho para a acusação de importantes figuras do governo Bush e o estabelecimento de um inquérito no Congresso.Em meio ao clamor que isso provocou, ele tem recuado desde então. Tanto Obama quanto o líder democrata no Senado, Harry Reid, indicaram sua reticência em apoiar a criação de uma comissão da verdade, mas a líder democrata na Câmara, Nancy Pelosi, parece disposta a seguir em frente. Com tanto clamor por uma investigação, é quase certo que o Congresso realizará uma, com ou sem a anuência da Casa Branca.A liberação das fotos vem sendo pedida pela União Pelas Liberdades Civis Americanas (ACLU, na sigla em inglês), um grupo de defesa dos direitos humanos cuja ação legal forçou a publicação dos memorandos do governo Bush com base na liberdade de informação.As fotos aumentarão a pressão por perdões ao pessoal militar que foi punido por abusos em Abu Ghraib. Seus advogados estão argumentando que o governo Bush retratou os fatos como um incidente isolado, enquanto eles eram, na verdade, generalizados e aprovados nos mais altos escalões."Isso constituirá uma prova de que, diferentemente da afirmação do governo Bush, o abuso não se confinava a Abu Ghraib nem era uma aberração", disse Amrit Singh, um advogado da ACLU. Há o risco de as fotos provocarem novos retrocessos no Oriente Médio, embora seja mais provável que elas serão vistas em seu contexto histórico como pertencentes à era Bush. Ao bloquear a liberação das fotos, o antigo governo argumentou que elas criariam indignação, mas também que aquilo contrariaria o dispositivo das Convenções de Genebra que proíbe exibir fotos de prisioneiros. Cerca de 250 mil petições foram enviadas na quarta-feira ao secretário de Justiça, Eric Holder, pedindo a instauração de processos contra funcionários do governo Bush responsáveis pela aprovação da simulação de afogamento e outros métodos brutais de interrogatório.

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