EUA dizem que Chávez está no rumo errado

Surpreendido pelo retorno de Hugo Chávezà presidência da Venezuela depois do fracasso do golpe deEstado que deixou de condenar, o governo dos Estados Unidosenfrentou neste domingo o embaraço, exortando o líder venezuelano atirar as lições correta do episódio."Espero que Hugo Chávez compreenda a mensagem que seu povolhe enviou, de que suas políticas não estão funcionando", dissea conselheira de Segurança da Casa Branca, Condoleezza Rice, noprograma Meet the Press, da NBC. "Nós esperamos que Chávezreconheça que o mundo inteiro está olhando e que ele aproveiteessa oportunidade para endireitar seu próprio barco, que,francamente, está indo na direção errada há bastante tempo."Quarto maior exportador mundial de petróleo, a Venezuela éum dos maiores fornecedores dos EUA. Suas relações comWashington, difíceis desde o início, azedaram de vez depois queele criticou a campanha americana contra o terrorismo noAfeganistão, no final do ano passado.O Departamento de Estado pediu "a todos" na Venezuela "paraevitar a violência e buscar maneiras de se engajar pacificamente para resolver essa crise".Num recado a Chávez,um porta-voz disse que "aqueles em posição de autoridade têmresponsabilidade especial de manter a ordem e as condiçõesnecessárias para os venezuelanos trabalharem juntos pararestaurar plenamente os elementos essenciais da democracia".Rice reforçou a mensagem. "Não é hora para caça às bruxas, maspara a reconciliação nacional na Venezuela, e estamos trabalhandocom os nossos parceiros na Organização dos Estados Americanos (OEA) ena região para ajudar a Venezuela nessa hora difícil", afirmouela.O secretário-geral da OEA, César Gaviria, partiu neste domingo paraCaracas, em missão ordenada pelos 34 países-membros daorganização numa reunião de embaixadores. O encontro, que sóterminou na madrugada deste domingo, adotou uma resolução para"condenar a alteração da ordem constitucional na Venezuela" eativou, pela primeira vez, a Carta Democrática adotada no dia 11de setembro do ano passado, que proíbe os golpes e estabelece a"democracia representativa" como único regime políticoaceitável nas Américas.O retorno de Chávez ao poder esvaziou amissão de Gaviria e provavelmente tornou desnecessária areunião. Mas a ação da OEA expôs a divisão que o episódioprovocou entre os Estados Unidos, que nutre intensa antipatiapelo líder venezuelano, e os demais países da região.Pouco mais de um mês depois de a administração Bush tercomprometido sua credibilidade como defensora da liberalizaçãocomercial, impondo barreiras às importações de aço, seu apoiotácito aos golpistas e desconfianças - injustificadas, ao quetudo indica - sobre um possível envolvimento americano natentativa de derrocada de Chávez alimentam, agora, suspeitastambém em relação ao apego de Washington à democracia nocontinente, quando seus interesses estão em jogo.Essas suspeitas, reforçadas pelas tentativas de altosfuncionários de Washington de negar que o que aconteceu emCaracas foi um golpe militar, serviram como pano de fundo paraas discussões na OEA, no sábado.Diante da diposição de todos osdemais países da região, inclusive México e Canadá, derepudiar a quebra da ordem constitucional na Venezuela, osrepresentantes americanos resignaram-se desde o início dasdiscussões a subscrever uma condenação coletiva ao golpe.Maspassaram horas tentando, em vão, dar-lhe um lugar de menosdestaque na resolução e incluir uma menção à "polarização" dasituação política na Venezuela nos meses anteriores à tentativade golpe - uma maneira de justificar a intervenção dos militarese a posição da administração, segundo a qual Chávez foi oprincipal responsável pela crise."Não devemos nos preocupar somente com o que aconteceu nasúltimas 24 horas na Venezuela, mas nos últimos 24 meses", disseo embaixador americano da OEA, Roger Noriega, citando asinvestidas de Chávez contra a imprensa e outros gestos doautoritário líder populista venezuelano - um ex-coronel golpistaeleito com mais de 70% dos votos em 1998.A delegação americanasó mudou de tática depois que as notícias de Caracas indicaramque os adeptos de Chávez estavam retomando o controle do país.Em conversas com os demais embaixadores, Noriega disse que oretorno dos chavistas e, depois, do próprio Chávez ao poder, eraa prova de que Washington não teve qualquer participação naconspiração contra o líder venezuelano.É certo que os membros da delegação americana na OEA nãoestavam bem informados sobre o que se passava na Venezuela.Informado por um jornalista, tarde da noite deste sábado, de que oquadro em Caracas estava se transformando rapidamente em favor deChávez, um membro da delegação americana não conseguiu escondersua surpresa. "De onde vem sua informação?", perguntou.Poucodepois, quando os representantes venezuelanos na OEA anunciaramque Chávez estava a bordo de um helicóptero, a caminho deMiraflores, para reassumir a presidência, um funcionárioamericano disse a vários embaixadores que o líder estava sendolevado de volta ao palácio presidencial para assinar sua cartade renúncia.Os Estados Unidos não foram os únicos a ficar mal nafotografia do frustrado golpe militar em Caracas. O governoconservador da Espanha, que no momento ocupa a presidência daUnião Européia, subscreveu um comunicado conjunto com os EUA, na últimasexta-feira, culpando Chávez pela crise, e deixou de acompanharos demais países europeus na condenação da intervenção dosmilitares.O secretário-geral da OEA, César Gaviria, também não se saiu bem no episódio. Ex-presidente da Colômbia, ele teve dificuldadeem esconder sua preferência pelos adversários de Chávez naVenezuela e manter a posição de neutralidade que corresponde àsua função. Acabou, por isso, sendo interpelado pelosrepresentantes da região em pelo menos dois momentos em quetentou fazer gestos de reconhecimento do breve governoprovisório encabeçado por Pedro Carmona, nomeado pelos militaresgolpistas.Logo no início das discussões, o embaixador de Barbados,Michael King, interrompeu Gaviria, depois que o secretário-geralda OEA comunicou que havia conversado com o "presidenteCarmona", em Caracas, e recebido algumas mensagens dele porfax. King lembrou a Gaviria da natureza ilegal da mudança degoverno que havia acontecido na Venezuela e pediu-lhe queaguardasse a decisão da organização hemisférica antes delegitimar a administração Carmona por conta própria.Algumas horas mais tarde, o secretario-geral da OEA voltou àcarga. Desta vez, comunicou que havia recebido comunicação de Caracascredenciando um novo embaixador da Venezuela junto à OEA, emlugar de Jorge Valero, o representante do governo Chávez. Destavez, foi o embaixador do Brasil, Walter Pecli Moreira, queinterveio para pedir a Gaviria que se concentrasse na questão empauta, ou seja, a discussão da resolução ativando a CartaDemocrática e condenando o golpe.O desempenho de Gaviria deixoudúvidas sobre a eficácia dos conselhos que deve dar a Chávezdurante sua visita a Caracas, para que o líder venezuelanoabandone seu estilo abrasivo e desagregador, modere sua atuaçãoe busque aliados.Embora muitos dos governos da região não vejam o lídervenezuelano com simpatia e compartilhem a análise de Washington,segundo a qual Chavez é, ele próprio, seu pior inimigo, adecisão coletiva de invocar a Carta Democrática e repúdiar ogolpe na Venezuela "mostra o amadurecimento da consciênciademocrática na região", disse o embaixador barsileiro na OEA."Como toda a reunião da OEA, esta também foi mais demorada doque precisava ser, mas marcou um momento bonito e importante deafirmação de princípios."Grandes Acontecimentos InternacionaisESPECIAL VENEZUELA

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