Alexander Ermochenko/Reuters
Alexander Ermochenko/Reuters

Envio de tropas russas é uma 'invasão', diz Casa Branca, que deve anunciar sanções mais duras

A Casa Branca ainda não havia usado o termo "invasão" para se referir aos movimentos no leste da Ucrânia, uma declaração que resultaria na imposição de sanções a Moscou

Redação, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2022 | 12h29
Atualizado 22 de fevereiro de 2022 | 13h30

WASHINGTON - A Casa Branca começou nesta terça-feira, 22, a se referir ao destacamento de tropas russas ao leste da Ucrânia como uma “invasão”, depois de inicialmente hesitar em usar o termo - uma linha vermelha que o presidente Joe Biden disse que resultaria na imposição de sanções severas dos Estados Unidos a Moscou.

Vários líderes europeus disseram no início do dia que tropas russas se moveram para áreas controladas por rebeldes no leste da Ucrânia depois que o presidente russo Vladimir Putin reconheceu sua independência - mas alguns indicaram que ainda não era a tão temida invasão de pleno direito.

Mais tarde, a Casa Branca sinalizou uma mudança em sua própria posição. “Achamos que isso é, sim, o início de uma invasão, a mais recente invasão da Rússia na Ucrânia”, disse Jon Finer, principal vice-conselheiro de segurança nacional. “Uma invasão é uma invasão e é isso que está em andamento.”

A Casa Branca decidiu começar a se referir às ações da Rússia como uma “invasão” por causa da situação no terreno, disse um funcionário do governo dos EUA que falou sob condição de anonimato à agência Associated Press. O governo resistiu inicialmente a nomear assim o envio de tropas porque a Casa Branca queria ver o que a Rússia realmente faria. Depois de avaliar os movimentos das tropas russas, ficou claro que era uma nova invasão, acrescentou o funcionário.

A secretária de imprensa da Casa Branca, Jen Psaki, também aludiu à ação russa como sendo uma invasão em um post no Twitter comentando a decisão do chanceler alemão Olaf Scholz de interromper o gasoduto Nord Stream 2 em resposta às ações da Rússia.

O presidente dos EUA “deixou claro que, se a Rússia invadisse a Ucrânia, agiríamos com a Alemanha para garantir que o Nord Stream 2 não avance”, disse Psaki.

Para Entender

Entenda a crise entre Rússia e Otan na Ucrânia

O que começou como uma troca de acusações, em novembro do ano passado, evoluiu para uma crise internacional com mobilização de tropas e de esforços diplomáticos

Ocidente prepara 'sanções severas'

Há semanas, as potências ocidentais se preparam para uma invasão, enquanto a Rússia concentra cerca de 150.000 soldados em três lados da vizinha Ucrânia. Os países alertaram que um ataque causaria muitas perdas, escassez de energia na Europa e caos econômico em todo o mundo - e prometeram sanções rápidas e severas se isso se materializasse. A União Europeia e o Reino Unido anunciaram na terça-feira que algumas dessas medidas estão chegando.

Líderes ocidentais há muito alertam que Moscou procuraria um motivo para invadir - e exatamente esse pretexto apareceu na segunda-feira, quando Putin reconheceu como independentes duas regiões separatistas no leste da Ucrânia, onde tropas do governo lutavam contra rebeldes apoiados pela Rússia em um conflito que matou mais de 14.000 pessoas.

O Kremlin então elevou as apostas ainda mais na terça-feira, dizendo que o reconhecimento se estende até mesmo às grandes partes agora detidas pelas forças ucranianas.

Líderes dos Estados Unidos e da Europa condenaram a decisão de Putin na segunda-feira de reconhecer as regiões separatistas, as chamadas Repúblicas Populares de Donetsk e Luhansk, criadas depois que a Rússia fomentou uma guerra separatista no leste da Ucrânia em 2014.

O governo Biden estava debatendo na manhã desta terça-feira quais sanções desencadear contra Putin, seus associados e o sistema financeiro da Rússia, segundo informou o The New York Times. Os Estados Unidos enfrentam uma tarefa difícil, ao mesmo tempo em que tentam deixar claro que as ações de Putin no leste da Ucrânia não ficarão impunes, enquanto deixam em aberto a opção de impor mais sanções caso Putin ataque o resto do país.

Para Entender

Como Putin preparou a economia russa para sanções desde a anexação da Crimeia

Desde que pagou um alto preço pela anexação da do território ucraniano em 2014, a Rússia tentou tornar sua economia à prova de sanções e isolamento.

Em Moscou, Putin descartou o que descreveu como especulação de que Moscou planejava “recriar o Império Russo nas fronteiras do império”. "Isso absolutamente não corresponde à realidade", disse Putin em comentários televisionados ao lado do presidente Ilham Aliyev, do Azerbaijão, uma ex-república soviética que tem laços estreitos com a Ucrânia e a Rússia.

Um dia antes, Putin fez um longo e inflamado discurso que descrevia a Ucrânia como parte da Rússia, chamando o governo de Kiev de pouco mais do que um “fantoche” dos Estados Unidos e seus líderes, os únicos responsáveis ​​por qualquer “derramamento de sangue” que possa vir a seguir.

Autoridades da Casa Branca disseram que Biden imporá sanções econômicas às regiões separatistas da Ucrânia e que uma nova resposta ocidental será anunciada na terça-feira.

Altos funcionários da UE disseram que o bloco está preparado para impor sanções a várias autoridades e bancos russos que financiam as forças armadas russas e deve agir para limitar o acesso de Moscou ao capital e aos mercados financeiros da UE. 

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, também disse que o Reino Unido aplicaria sanções a cinco bancos russos e três bilionários próximos de Putin. Embora tenha dito que os tanques russos já entraram no leste da Ucrânia, ele alertou que uma ofensiva em grande escala traria “mais sanções poderosas”.

As medidas russas também levaram a Alemanha a suspender o processo de certificação do gasoduto Nord Stream 2, que traria gás natural da Rússia. O oleoduto foi construído para ajudar a Alemanha a atender suas necessidades de energia.

Rússia descarta envio de tropas 'por enquanto'

A Rússia não tem a intenção, por enquanto, de enviar tropas para as regiões separatistas do leste da Ucrânia, mas fará isso, se houver uma ameaça, declarou o vice-chanceler Andrei Rudenko, nesta terça.

"A ajuda militar está prevista no acordo [com os separatistas], mas não vamos especular. Por enquanto, não vamos mandar ninguém para parte alguma", disse. "Se houver uma ameaça, então, é claro, daremos nossa ajuda, segundo o acordo que foi ratificado", acrescentou.

Dois decretos do presidente russo sancionados na segunda-feira pedem ao Ministério da Defesa que "as Forças Armadas russas assumam funções de manutenção da paz no território de Donetsk e Lugansk. 

Além disso, nesta terça, também foram aprovados pelo Parlamento dois acordos que criam a base legal para a presença nestes territórios de "unidades militares russas necessárias para a manutenção da paz na região e para garantir uma segurança duradoura das partes". Estes textos "estabelecem as obrigações das partes para garantir assistência mútua, se uma das partes for objeto de um ataque", e "preveem uma proteção comum nas fronteiras". 

Condenação no Conselho de Segurança da ONU

Nas últimas semanas, cerca de 150.000 a 190.000 soldados russos, segundo estimativas ocidentais, gradualmente cercaram seu vizinho, e os Estados Unidos alertaram repetidamente que uma invasão russa não era questão de se, mas de quando.

Vídeos de comboios militares passando pelos territórios separatistas estavam circulando nas mídias sociais nesta terça-feira, mas não houve confirmação oficial imediata de que eram tropas russas e não forças de separatistas apoiados pela Rússia.

Do lado ucraniano, relatos igualmente não confirmados nas mídias sociais pareciam mostrar o Exército ucraniano movendo armamento pesado, como canhões de artilharia autopropulsados ​​e tanques, em direção à linha de frente com os enclaves separatistas.

O secretário de Estado Antony Blinken disse no Twitter que “o movimento da Rússia para reconhecer a 'independência' das chamadas repúblicas controladas por seus próprios representantes é um ato previsível e vergonhoso”. Ele acrescentou que disse ao ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Dmitro Kuleba, que os Estados Unidos condenaram as ações nos “termos mais fortes possíveis”.

Em uma reunião de emergência do Conselho de Segurança das Nações Unidas na segunda-feira, várias nações repreenderam a Rússia, dizendo que a medida representava uma violação da Carta das Nações Unidas e um ataque à soberania da Ucrânia.

Embora a reunião tenha terminado sem nenhuma ação tomada, Linda Thomas-Greenfield, embaixadora americana nas Nações Unidas, disse que os membros do conselho “enviaram uma mensagem unificada - que a Rússia não deveria começar a guerra”.

Em meio às crescentes tensões, o presidente Joe Biden e Vladimir Putin concordaram provisoriamente em uma reunião como um último esforço para evitar a guerra. Mas os EUA sempre disseram que se a Rússia entrasse, a reunião seria cancelada./AP, AFP e NYT

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.