EUA dizem que opções para solução pacífica estão quase esgotadas

Diante de crescentes sinais de oposição entre os aliados a um ataque preventivo contra Iraque, sem autorização do Conselho de Segurança das Nações Unidas, a administração Bush intensificou hoje a campanha para justificar seus planos de guerra contra o regime de Saddam Hussein. "Uma coisa é certa: ele não está se desarmando", afirmou o presidente George W. Bush, referindo-se ao líder iraquiano. O porta-voz da Casa Branca, Ari Fleischer, disse que uma decisão do Conselho de Segurança sobre uma ação militar americana contra o Iraque será "um teste da capacidade das Nações Unidas de cumprir seu mandato original".Falando no Instituto da Paz, o vice-secretário de Estado, Richard Armitage, ficou perto de descartar a possibilidade de uma resolução pacífica. Ele disse que "não há nenhum sinal de que o regime (de Saddam) tem qualquer intenção de cumprir plenamente com os termos da resolução 1441 (do Conselho de Segurança) e advertiu os aliados de que "as opções para se lidar com o Iraque estão praticamente esgotadas".Ao mesmo tempo, altos funcionários da administração começaram a reavaliar o dia da entrega do relatório dos inspetores de armas da ONU no Iraque ao Conselho de Segurança, na próxima segunda-feira, como prazo para o início de uma ação punitiva contra o Iraque. "O dia 27 é importante, mas não é um fator decisivo", disse uma fonte oficial. A declaração alimentava um novo cálculo para uma contagem regressiva para a guerra nos meios diplomáticos.De acordo com uma interpretação, Bush, que fará seu discurso anual ao Congresso no dia 28, usará a ocasião para estabelecer um prazo final de um mês ou pouco mais para o Iraque revelar todas as armas de destruição em massa e matérias-primas para construi-las ou arcará com as conseqüências.O prazo adicional dará tempo para o Pentágono completar a fase final mobilização final de tropas para o Golfo Pérsico, que começou nos primeiros dias do ano, e para o Departamento deEstado assegurar um aval internacional para a guerra contra Saddam. Numa clara confirmação de que irá à guerra para remover o regime iraquiano do poder, com ou sem o respaldo do Conselho de Segurança, Bush disse hoje que os EUA liderarão uma "coalizão dos dispostos" a fazer valer as resoluções do órgão. Até o momento, apenas a Inglaterra e a Austrália participam de tal coalizão. "As Nações Unidas precisaram de Bush para ganhar espinha, pois se tivéssemos continuado no caminho em que estivemos nos anos 90, não haveria nenhum inspetor de armas doIraque hoje", reforçou Fleischer, numa crítica velada ao governo Clinton.As declarações feitas hoje por Bush e por seus assessores foram calculadas para contornar os novos obstáculos políticos e diplomáticos que surgiram nos últimos dias em passeatas anti-guerra em grandes cidades americanas e capitais internacional, nas declarações de oposição a um ataque feitas pelos governos da Franca e da Alemanha e no cisma que o apoio do primeiro-ministro Tony Blair à estratégia de Bush ameaça provocar no Partido Trabalhista inglês.Embora não seja insuperável, a oposição da França é um complicador importante, pois se trata de um país com poder de veto no Conselho de Segurança. A opinião de Berlim também pesa, porque, por coincidência, a Alemanha estará na presidênciarotativa do Conselho de Segurança no mês que vem, quando é provável que os EUA cobrem uma posição definitiva da ONU. Na segunda-feira, o ministro das Relações Exteriores da Franca, Dominique de Villepin, acusou a administração Bush de "impaciência" na confrontação com o Iraque. "Cremos que não há nada hoje que justifique se considerar uma ação militar" contra o Iraque, disse ele. Seu colega alemão, Joschka Fischer, foi mais longe. Ele disse que "o Iraque cumpriu plenamente todas as resoluções relevantes" e acrescentou que os inspetores devem ter "todo o tempo que necessitarem" para completar seu trabalho.Faltando algumas semanas para ter as tropas e o equipamento em posição para desencadear uma ofensiva maciça contra o regime de Saddam, antes da chegada da primavera e do calor intenso no Iraque, a administração americana calcula que uma ação fulminante e uma vitória rápida serão a melhor justificativa para a guerra perante a comunidade internacional, se esta negar-lhe previamente o respaldo político para levar adiante seu plano de mudar o regime em Bagdá.

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