Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Como a disputa entre EUA e China pode atrapalhar a retomada da América Latina?; leia análise

Apesar de boas notícias em relação às economias latino-americanas, futuro é incerto

Otaviano Canuto* / Americas Quarterly, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2021 | 14h00

O ano recente testemunhou boas notícias em relação às economias latino-americanas. A recuperação da região tem sido mais forte do que o esperado, e as previsões de crescimento do Banco Mundial e do FMI melhoraram em relação a seis meses atrás. Campanhas de vacinação e apoios fiscais desencadearam uma retomada econômica desde o segundo semestre do ano passado, apesar de uma aparente perda de ímpeto no terceiro trimestre deste ano.

Mas o futuro continua incerto. A América Latina foi pega por duas das principais forças globais que ameaçam o crescimento da região: uma potencial queda do fluxo de capital dos EUA, à medida que os estímulos do governo americano relativos à pandemia diminuem; e uma desaceleração no crescimento da China, onde uma crise energética se assoma justamente no momento em que os exaustos mercados imobiliários do país começam a entrar em modo reverso. Para complicar a tempestade, os países da região terão de direcionar estímulos fiscais e sinalizar que objetivos a médio prazo serão perseguidos, enquanto fazem o que podem para garantir uma recuperação do setor privado capaz de compensar uma contração nessas políticas.

Mesmo até este ponto, a recuperação da região tem sido desigual e parcial. Isso tem ocorrido em grande parte por causa de diferenças em índices de vacinação — 75% da população do Uruguai está vacinada, e 5% da Nicarágua — e na capacidade e disposição de conceder auxílios fiscais. Até o fim deste ano, o PIB da maioria dos países da região está previsto para permanecer abaixo dos níveis níveis de 2019, e nenhum país deverá alcançar os níveis de PIB previstos para 2022 antes da pandemia.

A recuperação tem ocorrido em parte graças à força do crescimento do PIB dos principais parceiros comerciais da região — EUA, China e Europa — enquanto as condições das finanças globais permaneceram positivas, apesar de soluços ocasionais. A retomada das commodities esfriou recentemente, enquanto os preços de alguns grupos de commodities caíram ou se mantiveram estáveis, mas o comércio melhorou de maneira geral para os países dependentes de commodities na região. De acordo com os registros do Institute of International Finance (IIF), houve uma retomada nos fluxos de capital este ano, mas uma diminuição no segundo semestre.

O ambiente global, porém, parece pronto para se tornar mais hostil, já que tendências tanto de EUA e quanto de China deverão tornar as coisas mais difíceis para as economias latino-americanas. Uma alta global de inflação, refletindo restrições em abastecimento e oferta de mão de obra que não devem de resolver no futuro imediato, eleva taxas de juros, além de aumentar a probabilidade do fim aos estímulos monetários no ano que vem. Desde o fim de setembro, preocupações de investidores a respeito de pressões inflacionárias nos EUA aumentaram os rendimentos, revertendo um declínio nas taxas de juros praticadas pelo mercado.

Alguns temem que mudanças na política monetária dos EUA poderiam desencadear uma reedição da Histeria de 2013, quando o capital fugiu dos mercados emergentes. Mas os fluxos de capital para a região não têm sido tão intensos nos anos recentes. Para a maioria dos países, termos favoráveis no comércio e demandas domésticas em queda ocasionaram contas externas razoavelmente confortáveis. Uma repetição de 2013 parece improvável, mas o investimento doméstico poderia cair se as condições financeiras piorarem.

Enquanto isso, a China — principal compradora da maioria das exportações latino-americanas — está enfrentando uma desaceleração no crescimento, à medida que a atividade estimuladora do PIB de seus mercados imobiliários se estagna, em uma reprise do reequilíbrio econômico do país depois da crise financeira de 2008. O impacto direto da quebra da Evergrande, uma empresa imobiliária chinesa altamente endividada, e outras firmas do setor ficará em grande parte confinado domesticamente, mas a desaceleração macroeconômica resultante já apareceu nos números mais recentes. O novo ritmo de crescimento da China poderá exigir um preço nos termos do comércio tanto de exportações quanto de commodities para a região.

Países latino-americanos são capazes de pouco para alterar essas tendências globais. Como eles podem navegar melhor por elas? A melhor opção pode ser simplesmente se concentrar no front doméstico. O legado da pandemia de elevação nas dívidas públicas significa que os apoios fiscais e financeiros devem ser mais seletivos, com foco em empresas e trabalhadores mais vulneráveis. Países da região que encaram normalmente pouca folga fiscal (Brasil, Colômbia e, em alguma medida, México) evitarão novos gastos. Aqueles ainda em um ambiente mais favorável, como Chile e Peru, devem estar preparados para condições financeiras mais rígidas no exterior.

Espaço limitado para políticas e pressões sociais exacerbam riscos políticos, mas limitar gastos significa depender pesadamente do setor privado para uma recuperação. As recentes experiências de México e Peru ilustraram como a incerteza em relação a políticas pode restringir o investimento privado. A região terá de se fiar em melhorar eficiência e diminuir gastos, enquanto garante que o dinheiro ajude as fatias da população atingidas mais negativamente pela crise da pandemia.

Em um horizonte a longo prazo, há que se prestar atenção ao fato de que recuperações econômicas incompletas geraram mercados de trabalho fracos, abundantes em cicatrizes, e “a sombra” do desemprego. Daí a relevância de implementar políticas de treinamento e requalificação de trabalhadores. Como Carlos Felipe Jaramillo, Pepe Zhang, e eu discutimos recentemente, a América Latina em parte já alcançou o status de alto poder aquisitivo — mas partes substanciais de sua população são extremamente vulneráveis a choques econômicos e desastres naturais. A pandemia deixou dolorosamente claro que a região precisa desesperadamente de uma abordagem com base em vulnerabilidades para compreender e enfrentar a pobreza. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

* É PESQUISADOR-SÊNIOR DO CENTRO DE POLÍTICAS PARA O NOVO SUL, EX-VICE-PRESIDENTE E EX-DIRETOR EXECUTIVO DO BANCO MUNDIAL, EX-DIRETOR EXECUTIVO DO FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL E EX-VICE-PRESIDENTE DO BANCO INTERAMERICANO DE DESENVOLVIMENTO

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