REUTERS/Thomas Peter
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EUA e China prometem trabalhar juntos contra mudança climática

Às vésperas da cúpula do clima organizada pelo presidente americano Joe Biden, os rivais geopolíticos emitem um raro comunicado para declarar ação contra emissão de carbono

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2021 | 05h00

SEUL - Os Estados Unidos e a China disseram que vão “combater as mudanças climáticas com a seriedade e a urgência que o problema exige”, intensificando os esforços para reduzir as emissões de carbono. O anúncio foi uma rara demonstração de cooperação em meio ao aumento das tensões entre os dois países em torno de uma série de outras questões.

A declaração foi feita em um incomum comunicado conjunto na noite de sábado, no encerramento da visita de John Kerry, enviado climático do presidente Joe Biden, a Xangai, às vésperas da Cúpula de Líderes sobre o Clima. O evento, organizado pela Casa Branca, reunirá 40 chefes de Estado e governo nos dias 22 e 23 de abril, entre eles o presidente Jair Bolsonaro.

“É muito importante para nós tentarmos manter distante outras pendências, porque o clima é uma questão de vida ou morte em tantas partes diferentes do mundo”, disse Kerry em uma entrevista neste domingo, 18, em Seul, onde se reuniu com autoridades sul-coreanas para discutir o aquecimento global. “O que precisamos fazer é provar que podemos realmente nos reunir, sentar e trabalhar em algumas coisas de forma construtiva.”

O comunicado é assinado por Kerry e Xie Zhenhua, enviado especial da China para as mudanças climáticas. Os dois também disseram que irão apoiar a transição de países emergentes para formas de energia limpas “sempre que possível”, sem especificar medidas para isso. 

As discussões ambientais bilaterais entre China e EUA haviam sido praticamente interrompidas durante o governo do ex-presidente Donald Trump, que abandonou o Acordo de Paris em junho de 2017, afirmando que seus termos “prejudicariam” a economia americana e poriam o país em “desvantagem permanente”.

Biden retornou ao pacto horas após a sua posse e, desde então, se concentra ativamente em transformar os EUA em uma liderança na ação contra a mudança do clima. O protagonismo também é disputado pela China, impasse que cria um obstáculo para uma maior colaboração, apesar dos compromissos traçados no comunicado conjunto.

Sinal disso veio na sexta, durante a visita de Kerry, quando o porta-voz da Chancelaria de Pequim, Zhao Lijian, disse a repórteres que os americanos “são responsáveis por atrasar o cumprimento” do Acordo de Paris. De acordo com a porta-voz, os EUA “deveriam ter vergonha” de tê-lo abandonado e “não deixam claro como farão para recuperar o tempo perdido”.

Há uma série de outras tensões entre os dois países. Na sexta-feira, enquanto os dois enviados se encontravam, o Departamento de Estado americano criticou as sentenças de prisão proferidas em Hong Kong a proeminentes líderes pró-democracia, incluindo Jimmy Lai, um magnata da mídia de 72 anos. No mesmo dia, a China alertou os Estados Unidos e o Japão contra um “conluio” quando Biden se reuniu na Casa Branca com o primeiro-ministro japonês Yoshihide Suga. As ambições geopolíticas crescentes da China foram uma das principais questões ado encontro.

O acordo chega poucos dias antes de Biden realizar a cúpula virtual do clima com líderes mundiais, a partir de quinta-feira, na esperança de estimular os países a fazerem mais para reduzir as emissões e limitar o aquecimento planetário.

O líder da China, Xi Jinping, está entre os convidados para a cúpula virtual. Embora ele ainda não tenha aceitado publicamente o convite, o acordo com Washington deve tornar sua participação mais provável.

Na sexta-feira, Xi disse que a China continua comprometida com as metas climáticas. Ao mesmo tempo, Xi sugeriu que as nações mais avançadas do mundo têm a responsabilidade de assumir a liderança em fazer cortes mais profundos. No que parecia ser uma réplica aos Estados Unidos, ele alertou que a questão climática não deveria ser “uma moeda de troca para a geopolítica” ou “uma desculpa para barreiras comerciais”.

A meta mais ambiciosa é impulsionada por Biden, que busca usar a cúpula desta semana para convencer outras nações a aumentarem os compromissos assumidos há seis anos. A intenção é que isso seja feito antes da COP-26, conferência climática da ONU que acontecerá em novembro, em Glasgow, na Escócia.

Responsável sozinha por 28% dos gases causadores de efeito estufa emitidos no planeta, a China prometeu vagamente no ano passado atingir a neutralidade de carbono até 2060. Um dos objetivos da Casa Branca com sua cúpula é que os chineses consolidem esta proposta.

Os EUA são o segundo país mais poluente, tendo sido responsáveis por 15% do total das emissões em 2020. Buscando servir como exemplo, a Casa Branca deverá anunciar durante sua cúpula uma meta atualizada para reduzir suas emissões em 50% até o fim desta década, quase o dobro da anteriormente prometida.

Kerry disse que a China estava efetivamente se comprometendo a agir de maneira mais rápida do que Xi Jinping havia prometido, “tomando medidas climáticas mais amplas que aumentam a ambição na década de 2020”, como afirma o comunicado. Os dois países continuarão a se reunir para discutir o assunto, acrescentou Kerry.

O novo plano econômico de cinco anos da China, revelado em março, ofereceu poucos novos detalhes para atingir as metas de emissões prometidas por Xi Jinping. A China continuou, por exemplo, a aprovar novas usinas a carvão, uma das principais fontes de emissão de carbono, priorizando a estabilidade social e o desenvolvimento de uma importante indústria nacional.

“Para um grande país com 1,4 bilhão de habitantes, essas metas não são facilmente alcançadas”, disse Le Yucheng, o vice-ministro das Relações Exteriores, em entrevista à Associated Press ontem. “Alguns países estão pedindo à China que faça mais em relação à mudança climática. Talvez isso não seja muito realista.” / NYT, W.POST e AP

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