EUA e Cuba decidem reatar relações depois de 53 anos

EUA e Cuba decidem reatar relações depois de 53 anos

Obama e Castro empreendem o maior avanço nos laços entre os países desde 1961; dissidentes e exilados reagem com ceticismo

Cláudia Trevisan, de Washington / Correspondente, O Estado de S. Paulo

17 de dezembro de 2014 | 20h57

Em declarações simultâneas em Washington e Havana, os presidentes Barack Obama e Raúl Castro anunciaram ontem a retomada das relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba, um passo histórico que coloca fim a 53 anos de isolamento entre os países. Os dois líderes conversaram por telefone anteontem durante quase uma hora, no primeiro contato do tipo desde a Revolução Cubana, em 1959.

O embargo econômico dos EUA à Cuba continua em vigor, mas uma série de medidas anunciadas ontem permitirão a ampliar o comércio, as comunicações e o fluxo de pessoas entre os países, na mais ampla reaproximação das últimas cinco décadas e meia. Obama se comprometeu a atuar junto ao Congresso para que o embargo seja suspenso, mas sua tarefa será dificultada pela ampliação do poder dos republicanos, que passarão a controlar o Senado e a Câmara a partir de janeiro e resistem a políticas favoráveis a Cuba.


“Esses 50 anos mostraram que o isolamento não funciona. É o momento de uma nova abordagem”, disse Obama em pronunciamento na Casa Branca. Nos próximos meses, os Estados Unidos deverão abrir uma embaixada em Havana e integrantes do governo americano passarão a viajar ao país. Cuba também terá uma representação em Washington. Atualmente, os dois países têm seções dentro da embaixada da Suíça em Havana e Washington.

“Nas mais significativas mudanças em nossas políticas em mais de 50 anos, nós vamos acabar com uma abordagem ultrapassada que, por décadas, fracassou em promover nossos interesses e vamos começar a normalizar as relações entre os dois países”, afirmou Obama. “Isso não significa que o principal foi resolvido. O bloqueio econômico, comercial e financeiro que provoca enormes danos humanos e econômicos a nosso país deve acabar”, declarou Castro em Havana.

Usando seus poderes executivos, Obama decidiu explorar todas as possibilidades permitidas pela legislação para ampliar as relações com Cuba. Empresas de telecomunicações americanas serão autorizadas a operar e a vender equipamentos para a ilha, o que deverá promover a comunicação interna e com o exterior. Documento sobre as medidas distribuído pela Casa Branca observa que a penetração da internet em Cuba é de apenas 5%, uma das mais baixas do mundo.

Também haverá ampliação nas autorizações de viagens à ilha, aumento no valor de remessas, autorização para exportação de bens de consumo e sinal verde para o uso de cartões de crédito e débito americanos em Cuba.

Tanto Obama quanto Castro ressaltaram que os dois países continuarão a ter divergências, mas expressaram a expectativa de que elas passarão a ser discutidas diretamente e tratadas de maneira distinta. “Devemos aprender a conviver de maneira civilizada com nossas diferenças”, declarou Castro.

Mas o presidente americano não escondeu a esperança de que a maior abertura leve a mudanças políticas na ilha, que não foram obtidas com as sanções impostas nas últimas cinco décadas e meia. “Eu não espero que as mudanças que eu estou anunciando provoquem transformações na sociedade cubana do dia para a noite”, reconheceu Obama. “Mas eu estou convencido de que com uma política de engajamento, nós podemos defender nossos valores de maneira mais efetiva e ajudar o povo cubano a ajudar a si próprio.”

Os Estados Unidos também têm a expectativa de que a mudança das políticas em relação à Cuba melhore o seu relacionamento com a América Latina, onde o embargo é condenado de maneira unânime. Em um gesto para a região, Obama anunciou que comparecerá à Cúpula das Américas, que será realizada em abril no Panamá e para qual Cuba foi convidada pela primeira vez.

No discurso de ontem, Obama fez um apelo a líderes americanos: “Vamos deixar para trás a herança tanto da colonização quando do comunismo, da tirania dos carteis de drogas, ditaduras e eleições fraudadas.”

O democrata chegou ao poder em 2009 prometendo rever as políticas americanas para Cuba. Naquele ano e em 2011, os EUA suspenderam algumas das restrições para viagens e remessas de recursos para a ilha. Mas medidas mais ousadas eram dificultadas pela prisão de Alan Gross, um prestador de serviços da agência americana para o desenvolvimento internacional (Usaid) preso em 2009 e condenado a 15 anos de prisão em 2011.

Na negociação com os EUA, Cuba aceitou libertar Gross e um agente americano preso havia 20 anos, cuja identidade não foi revelada. Em troca, os Estados Unidos libertaram três espiões cubanos presos em 2001. 

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