Yves Herman/Reuters
Yves Herman/Reuters

EUA e Europa, o que mudou nos quatro anos de Trump

Ataques de Donald Trump à União Europeia enfraqueceram as relações transatlânticas; vitória de Joe Biden nas eleições não viraria necessariamente o jogo

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2020 | 16h30

A relação transatlântica "quase morta" ainda pode ser salva? As disputas com os europeus que pontuaram a presidência de Donald Trump abriram uma lacuna difícil de superar, qualquer que seja o desfecho das eleições nos EUA, segundo analistas.

Para a Alemanha, alvo favorito do presidente dos Estados Unidos, o mandato termina como começou: com uma série de ataques do líder contra aquele país, considerado “mau pagador”, que teria tomado os Estados Unidos por “tolos”.

Com esses termos nada respeitosos, Donald Trump justificou sua decisão de retirar cerca de 12.000 militares dos EUA da Alemanha.

E Berlim, que tradicionalmente foi um dos aliados mais próximos de Washington no Velho Continente, se acostumou a ser alvo das provocações do presidente americano.

Antes mesmo de assumir o cargo, Donald Trump criticou abertamente a Alemanha e Angela Merkel por sua política de imigração, superávit e gastos militares, que considerou insuficientes.

Além da Alemanha, é o diálogo com a União Europeia que não parou de se deteriorar. "A relação transatlântica está quase morta", disse à AFP Sudha David-Wilp, do centro de estudos German Marshall Fund, dos Estados Unidos.

“O presidente republicano mostra abertamente seu desprezo pela UE, nunca antes um presidente americano chamou a UE de adversária”, observou o analista.

A sequência de tweets, discursos e decisões que geraram inquietação na Europa é longa: críticas à OTAN, retirada do acordo climático de Paris, denúncia do acordo sobre o programa nuclear iraniano, guerras comerciais com várias ameaças de tarifas, suporte para Brexit e outros.

Com Berlim, os pontos de discórdia não são apenas políticos, mas a relação entre Donald Trump e Angela Merkel nunca foi boa, sendo Merkel uma "mulher forte" que intriga o presidente, segundo Bruce Stokes, pesquisador associado do grupo de reflexão Chatham House.

A chanceler também não tentou buscar qualquer tipo de cumplicidade com Trump, ao contrário de outros líderes como o francês Emmanuel Macron, disse a pesquisadora Sudha David-Wilp.

 

A desconfiança que se instalou entre a Europa e os Estados Unidos deixará suas consequências, alertaram vários observadores.

A imagem dos Estados Unidos nunca foi tão ruim, de acordo com uma pesquisa do Pew Research Center: no Reino Unido, apesar de sua relação especial com os Estados Unidos, apenas 41% dos entrevistados - o pior valor já registrado - tiveram um opinião positiva dos Estados Unidos; enquanto na França a proporção era dez pontos menor e na Alemanha, apenas 26% avaliaram esse país positivamente.

  "As eleições presidenciais mostrarão se o 'efeito Trump' em termos de política antiliberal e protecionista é um fenômeno passageiro ou uma tendência mais profunda na política americana", disse a Fundação Robert Schumann, com sede em Bruxelas, em nota.

Uma vitória de Joe Biden não viraria necessariamente o jogo, pois embora o democrata tenha consciência da "necessidade de revitalizar as relações com os aliados", primeiro terá que enfrentar os muitos desafios que abalam o país, a começar pela luta contra a pandemia do coronavírus, lembrou David-Wilp.

Não haverá "retorno" à situação anterior, previu Bruce Stoks, que ainda assim enxerga a possibilidade de "definir uma nova relação" entre Washington e Bruxelas.

Mas “para muitos alemães, os Estados Unidos continuarão a ser um aliado visto com grande ceticismo”, considerou o diário alemão Süddeutsche Zeitung, sem se arriscar a prever “se e quando” o sentimento de uma “comunidade de valores” renascerá.

Se Donald Trump - que no momento não tem vantagem nas pesquisas - ganhar as eleições, a Europa pelo menos saberá o que esperar. Ao contrário de 2016, não haverá mais o efeito surpresa. “Se quisermos ver o copo meio cheio, a presidência de Trump poderia ter acelerado a unidade dos europeus”, observou Bruce Stokes.

De qualquer forma, mesmo sob um segundo mandato de Trump, Estados Unidos e UE poderão continuar a formar uma frente única quando tiverem interesse, considerou o pesquisador.

Seria o caso, por exemplo, diante dos desafios colocados por Pequim. "A Europa e os Estados Unidos devem se unir para enfrentar o enorme desafio apresentado pela China", disse Peter Beyer, chefe das relações transatlânticas da Alemanha, em entrevista recente à AFP. /AFP

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