Juan Medina / Reuters
Juan Medina / Reuters

EUA e Europa vão injetar bilhões em programas para frear terrorismo

Fundo vai financiar projetos de desenvolvimento, num reconhecimento que apenas bombas não vão dar resultados na guerra contra jihadistas

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S. Paulo

19 de janeiro de 2015 | 06h00

GENEBRA - Os governos dos EUA e da Europa vão injetar bilhões de dólares em programas sociais em locais considerados como as bases do recrutamento de jihadistas. O objetivo é conter o avanço de grupos terroristas que se aproveitam de condições sociais precárias em diversos países para consolidar sua presença e ganhar adeptos por meio de ideologia, mas também garantindo serviços básicos como saúde e alternativas para os jovens.

O fundo, que já deu seus primeiros passos, ficará em Genebra e seus executivos admitem que a experiência é "inédita". Depois de 15 anos em uma guerra contra o terror movida praticamente apenas por bombas e ações militares e dos resultados desastrosos no Afeganistão, Síria e Iraque, o fundo é a constatação dos governos ocidentais de que parte da resposta terá de ser social se quiser conter o terrorismo e ajudar comunidades consideradas como "moderadas".

O "banco anti-terrorista", como vem sendo chamado, já escolheu os cinco primeiros países para onde milhões serão enviados: Paquistão, Mali, Marrocos, Bangladesh e Nigéria.


Oficialmente, a iniciativa será conhecida como Fundo da Comunidade Global para Resistência e Engajamento, um nome complexo para uma finalidade ainda mais difícil. Seu princípio é de que o dinheiro terá de ser usado para combater todas as formas de extremismo e de terrorismo.

Segundo Khalid Koser, diretor-executivo da secretaria do fundo, cada projeto ganhará entre US$ 10 mil e US$ 50 mil, valor considerado como ideal para ter um impacto grande em pequenas comunidades. Por enquanto, o fundo já conta com uma base inicial de US$ 25 milhões para dar começar seu trabalho.

Um fundo paralelo ainda será estabelecido especialmente para lidar com o avanço do Estado Islâmico. "Esperamos que esse fundo já comece a aceitar projetos no início de 2015", disse Koser. Ele admite, porém, que um dos desafios será o de ter a aceitação dos governos afetados pelo EI.

Os programas que serão financiados serão apresentados por ONGs, comunidades locais e mesmo governos, sempre com o objetivo de criar "resistência" na comunidade contra o avanço terrorista. Isso poderá incluir a construção de hospitais, de escolas, de programas de rádio com mensagens moderadas ou mesmo campos de futebol.

Quanto a medir o sucesso do fundo, Koser aponta que sua iniciativa será considerada como um avanço se conseguir "limitar o recrutamento à violência ao oferecer alternativas positivas para comunidades", além de conter mensagens radicais e construir a capacidade nos governos e na sociedade civil para conter o extremismo.

Por enquanto, grande parte da doação prometida virá dos EUA, já que o projeto passou a ser uma das prioridades do secretário de Estado, John Kerry. Na Europa, o dinheiro vem de governos como o do Reino Unido, Suíça e da União Europeia.

Controvérsias. O fundo, porém, tem de lidar com uma polêmica já em sua criação. Um dos governos que prometeu dinheiro é o do Catar, acusado por muitos de estar justamente financiando alguns dos grupos de extremistas.

Koser defende a posição do fundo. "Sempre que possível em uma área de tamanha sensibilidade, o fundo tem a meta de ser apolítico", disse. "A estrutura do fundo garante que o financiador não será identificado como vindo de apenas uma fonte, protegendo assim tanto os doadores como aqueles que vão receber o dinheiro".

Outro debate se refere ao fato de que projetos propostos pelo novo fundo já deveriam fazer parte dos projetos de desenvolvimento social do Banco Mundial. Koser explica que a duplicação de trabalho não existirá. "A principal diferença são as comunidades que estamos tentando apoiar", disse. "Nenhuma outra iniciativa de desenvolvimento foca hoje em comunidades sob risco de radicalização", declarou.

Uma controvérsia ainda é o fato de o fundo ser visto apenas como um banco anti-islã. "Essa é uma questão importante", reconheceu Koser, britânico de origem paquistanesa e muçulmano. "Em quatro dos cinco países onde vamos começar nossos projetos, é verdade que o extremismo violento ocorre principalmente na população muçulmana", disse.

"Mas o fundo foi criado para evitar todo o tipo de extremismo violento, seja religioso, tribal, étnico", insistiu. "Certamente não é um fundo exclusivamente criado para o extremismo islâmico e o estamos ativamente engajados com outros países onde a ameaça não é islâmica e nem mesmo religiosa", completou.

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