EUA e Grã-Bretanha concordam em prorrogar ultimato

Diante de uma derrota quase certa, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha anunciaram que concordam com uma pequena extensão do ultimato para Saddam Hussein se desarmar ou enfrentar a guerra - mas a postergação por 45 dias proposta por seis nações indecisas no Conselho de Segurança parece ter sido descartada. Também ficou evidente que existem divergências entre Washington e Londres sobre os próximos passos a serem dados na crise.A administração do presidente americano, George W. Bush, falava de uma votação já nesta terça-feira, mas com a França e a Rússia ameaçando vetar o atual esboço de resolução, e sem ter garantidos o mínimo de nove votos a favor, Washington decidiu dar mais tempo para a diplomacia.A campanha dos EUA por votos sofreu outro golpe quando um porta-voz do partido governista do Paquistão anunciou que seu país irá se abster na votação no CS. Azeem Chaudhry fez o anúncio enquanto o premier paquistanês, Zafarullah Khan Jamali, pedia que fosse dado mais tempo a Bagdá para se desarmar. "Não queremos ver a destruição do povo iraquiano, a destruição do país", defendeu.Mas o embaixador iraquiano na ONU, Mohammed Al-Douri, falando hoje numa reunião aberta do CS, insistiu que seu país tomou "a decisão estratégica de se livrar de suas armas de destruição em massa"."Vamos responder de forma convincente a quem quer que tenha qualquer dúvida sobre a cooperação do Iraque", garantiu.O porta-voz da Casa Branca, Ari Fleischer, insistiu que a resolução será colocada em votação ainda nesta semana e indicou estar aberto a um compromisso, mas adiantou que "não dá nem para começar" a conversar sobre uma proposta pedindo a extensão por um mês do ultimato de 17 de março."Existe espaço para a diplomacia", disse Fleischer. Mas "não muito espaço, nem muito mais tempo".Ele falava enquanto o embaixador de Camarões, Martin Belinga-Eboutou, anunciava que ele e cinco outros embaixadores de nações-chave no CS - México, Chile, Angola, Guiné e Paquistão - iriam sugerir uma prazo final ainda mais longo, de 45 dias, e a definição das obrigações que Saddam Hussein teria de cumprir para evitar a guerra.Mas autoridades americanas rejeitaram a proposta."Ela não leva a lugar nenhum, existe apenas uma resolução na mesa", lembrou uma autoridade dos EUA.Tanto os EUA quanto a Grã-Bretanha, que está sob forte pressão interna para conseguir o respaldo da ONU para qualquer ação militar, afirmaram estar dispostos a negociar tanto a data limite quanto outras mudanças na resolução."Estamos fazendo das tripas coração para ver se podemos conseguir um maior consenso no conselho", afirmou o embaixador britânico na ONU, Jeremy Greenstock. "Estamos examinando se uma lista de testes do cumprimento iraquiano seria útil para o conselho. Isso não significa que exista qualquer conclusão".Greenstock disse que a data de 17 de março pode ser estendida, mas não muito.A Grã-Bretanha está "preparada para avaliar cronogramas e testes, mas estou certo de que estamos falando de agir em março. Não olhem para depois de março", advertiu, na CNN.Pela proposta britânica, Saddam teria 10 dias para provar que o Iraque assumiu a "decisão estratégica", o que poderia ser feito com uma série de testes, disseram diplomatas no CS.Se o Iraque passar nos primeiros testes, uma segunda fase teria início, com mais tempo para verificar o pleno desarmamento iraquiano, acrescentaram.A linha vermelhaReagindo à nova idéia da Grã-Bretanha, diplomatas franceses entenderam que a resolução ainda autorizaria a guerra, ao que a França se opõe. Entretanto, o Ministério do Exterior francês em Paris indicou estar aberto para novas idéias."É um novo desdobramento e o futuro nos dirá se ele é significativo", afirmou o porta-voz do Ministério do Exterior, François Rivasseau. "Temos indicado estar abertos ao diálogo".Entretanto, ele sublinhou que não pode ser cruzada a "linha vermelha" estabelecida pela França: "Não queremos ultimatos. Não queremos elementos que automaticamente autorizem a guerra. E temos dito que queremos que os inspetores sejam levados em consideração".O embaixador russo na ONU, Sergey Lavrov, foi igualmente inflexível."Não vemos nenhuma razão para interromper as inspeções, e qualquer resolução que contenha ultimatos e que contenha automatismos para o uso da força não é aceitável", declarou.Enquanto Washington e Londres buscam uma solução de compromisso, membros do CS concordaram com a realização de uma reunião aberta, pedida pelo Movimento dos Não-Alinhados, que representa 115 nações em desenvolvimento, a grande maioria crítica da guerra.Diplomatas avaliaram que, por isso, uma votação terá de ser adiada pelo menos até quinta-feira.Em campanhaBush continuava hoje com uma intensa campanha por telefone em busca de apoio de líderes mundiais.O presidente chinês, Jiang Zemin, insistiu com Bush que as inspeções no Iraque devem continuar e o impasse deve ser resolvido por meios pacíficos, informou o Ministério do Exterior da China. Jiang disse a Bush "não haver necessidade de uma nova resolução", relatou o porta-voz Kong Quan.No campo antiguerra, o chanceler francês, Dominique de Villepin, viajou à África para se reunir com os líderes de Angola, Guiné e Camarões - três importantes indecisos no conselho.O Japão começou a pressionar membros indecisos, como o México, pedindo apoio à resolução anglo-americana.O atual esboço de resolução - que autoriza a guerra depois de 17 de novembro se o Iraque não provar, até lá, que se desarmou - exige nove votos a favor, e que a França, Rússia e China não exerçam o veto.Os EUA têm o apoio da Grã-Bretanha, Espanha e Bulgária. Camarões e México estariam se inclinando para a posição americana. Mas com a Alemanha, Síria e agora o Paquistão dispostos a se abster ou votar contra, Washington terá de convencer Chile, Angola e Guiné a se alinharem com Bush.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.