EUA e Grã-Bretanha dão duas semanas para ONU decidir

A nova resolução que os Estados Unidos, Inglaterra e Espanha propuseram ao Conselho de Segurança das Nações das Unidas, condenando o Iraque por "violações materiais adicionais" das ordens de desarmamento do país aprovadas nos últimos 12 anos pela ONU, desencadeou a contagem regressiva final para uma provável ação armada contra o regime de Bagdá na segunda quinzena de março. O chanceler britânico, Jack Straw, citou um prazo de ?duas semanas ou pouco mais? para a votação do texto.Em contraste com a resolução 1441, que o Conselho de Segurança adotou por unanimidade em 8 de novembro, o texto de dois parágrafos que o embaixador da Inglaterra, Jeremy Greenstock, apresentou hoje à tarde em reunião fechada do órgão não autoriza o uso de "todos os meios necessários" contra o Iraque. A proposta de resolução faz referência às "sérias conseqüências" que o país enfrentará pelo descumprimento da ordem internacional. Mas a expressão está no preâmbulo e não - como acontece na 1441 - no parágrafo operativo da resolução. O ajuste da linguagem foi aparentemente calculado para facilitar o trabalho de convencimento que americanos farão para atrair mais cinco países com assento no Conselho para a sua proposta e alcançar o mínimo de nove votos necessário para aprovação. Embora o texto não autorize explicitamente uma ação armada, os governos dos EUA e da Inglaterra acreditam que a resolução daria cobertura legal suficiente para legitimar uma guerra contra o Iraque.Mais cinco votosPor ora, os dois países contam com apoio apenas da Bulgária e da Espanha. A julgar pelas manifestações que fizeram até agora, em tese os demais onze países representados no Conselho apóiam o plano de continuação das inspeções, que a França e a Alemanha propuseram hoje.Deste grupo, cinco já se declararam contrários à solução armada: França, Rússia, China, Síria e Alemanha, que no momento ocupa a presidência rotativa do Conselho de Segurança. A França, China e a Rússia são membros permanentes e têm poder de veto.O grupo liderado pela França e pela Alemanha necessita atrair para seu campo apenas mais dois países, entre México, Chile, Paquistão, Angola, Guiné e Camarões, para bloquear a resolução dos EUA e da Inglaterra.A aposta de Londres e de Washington é que suas diplomacias, com ajuda da Espanha, serão capazes de ganhar o respaldo de quatro dos seis países menores, pôr sua proposta de resolução em votação e forçar a França, Rússia ou China a vetá-la. O cálculo americano, que é compartilhado pelo governo inglês, é que, posto contra a parede, o governo do presidente Jacques Chirac escolherá a saída da abstenção, que servirá de escudo para a Rússia e a China e permitirá a aprovação de um aval da ONU a uma operação punitiva contra o Iraque, pela margem mínima de votos. A estratégia americana para conseguir os votos dos países menores significa uma rejeição da posição do Chile e do México, que pediram aos cinco membros permanentes do Conselho para chegarem a um entendimento, em lugar de pressioná-los. Os presidentes Vicente Fox, do México, o Ricardo Lagos, do Chile, já estão sob intensa pressão de Washington e de Madri. A situação é particularmente espinhosa para Fox, pois os mexicanos são maciçamente contrários ao apoio do país a uma resolução que autorize a guerra contra o Iraque, e ele enfrenta eleições legislativas e estaduais este ano.Duas semanas ou maisA questão "é se a ONU é um órgão que leva a sério o que diz", afirmou hoje o presidente George W. Bush, falando aos governadores de estado reunidos na Casa Branca. "Nós certamente esperamos que sim, mas de um jeito ou de outro Saddam Hussein, por amor à paz e à segurança do povo dos Estados Unidos, será desarmado". O porta-voz da Casa Branca, Ari Fleischer disse que a estratégia de Bush será a da diplomacia. "O presidente acredita no processo (de decisão) das Nações Unidas e gostaria de vê-lo funcionar; ele acha que é importante para o mundo que (tal processo) funcione e este caso determinará se ele funciona ou não", afirmou. Ao mesmo tempo, Fleischer indicou o desfecho que Bush considera mais provável dizendo que ele tem "muito pouca esperança" de que Bagdá responderá a uma nova iniciativa diplomática.Para o primeiro-ministro Tony Blair, que enfrenta crescente oposição dos ingleses e uma rebelião em seu Partido Trabalhista contra a aliança que fez com Bush para a guerra ao Iraque, a aprovação de uma nova resolução tornou-se politicamente indispensável. "Daremos um bom período, de até duas semanas ou talvez um pouco mais, antes de pedirmos que o Conselho tome uma decisão", afirmou hoje em Bruxelas o ministro das Relações Exteriores, Jack Straw. "Queremos que haja um consenso internacional".O prazo para discussões e negociações de bastidores mencionado por Straw deve terminar no dia 7 de março, a data marcada para a apresentação ao CS de mais um relatório do chefe dos inspetores de armas da ONU, Hans Blix. No domingo, o secretário de Estado dos EUA, Colin Powell, referiu-se ao 7 de março como uma data "crucial". O cronograma da diplomacia é compatível com os preparativos dos EUA para a guerra, que devem estar terminados em 15 de março.

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