EUA e Grã-Bretanha querem que ONU dê ultimato a Saddam

A Grã-Bretanha e os Estados Unidos propuseram que seja dado um ultimato a Saddam Hussein para cumprir com as inspeções da ONU até 17 de março, ou enfrentar a guerra. Mas França, Alemanha e outros membros do Conselho de Segurança rejeitaram a proposta, uma emenda à resolução americano-britânica-espanhola que abre caminho para o conflito. Opositores disseram que a proposta levaria automaticamente a uma ação militar, e a França ameaçou usar seu direito a veto.Autoridades dos EUA disseram que querem uma votação sobre a questão no começo da próxima semana.Mas a reunião de hoje do CS, realizada um dia depois de o presidente dos EUA, George W. Bush, ter dito que a crise estava em sua "fase final de diplomacia", parece ter deixado Washington e Londres sem o apoio necessário na ONU. Apesar de semanas de manobras diplomáticas, eles ainda não foram capazes de conquistar os nove votos necessários para a aprovação da resolução.O ministro do Exterior francês, Dominique de Villepin, propôs a realização de uma cúpula dos chefes de Estado dos países membros do Conselho para desarmar a crise. Mas o secretário de Estado dos EUA, Colin Powell, descartou a idéia de uma cúpula, dizendo não ver necessidade dela quando as potências têm expressado suas posições "aberta e francamente".Países-chave indecisos, como Angola, Paquistão e Chile, se mostraram contrários à resolução. Perguntado se Angola aceitaria o novo texto, o embaixador angolano Ismael Gasper Martins respondeu: "Infelizmente, não"."Não acho que este seja o tipo de compromisso que estamos esperando ou que podemos apoiar, ainda não".Ele e outros disseram que os EUA têm de estar abertos a negociações caso queiram ganhar apoio antes da votação na semana que vem. A resolução emendada, que o secretário do Exterior britânico Jack Straw anunciou na reunião do Conselho, declara que "o Iraque terá fracassado em aproveitar a última oportunidade" que o CS ofereceu em novembro "a menos que, em ou antes de 17 de março, o Conselho conclua que o Iraque demonstrou plena, incondicional, imediata e ativa cooperação de acordo com suas obrigações de desarmamento"."O que estamos dizendo é que o Iraque terá fracassado em aproveitar sua última oportunidade em 17 de março se o Conselho não tiver antes concluído que os iraquianos cooperaram plenamente", explicou uma autoridade americana, que pediu para não ser identificada.O ministro do Exterior alemão, Joschka Fischer, disse que o breve ultimato "levará num período muito breve a uma ação militar" porque ele é uma manobra para evitar um veto.O embaixador iraquiano, Mohammed Al-Douri, afirmou que seu país não tem armas de destruição em massa. Ele deixou a reunião de hoje confiante em que a resolução dos EUA não seja aprovada."Eles não têm os votos", avaliou. "Não acho que a comunidade internacional queira ir à guerra neste momento".A reunião foi temperada com momentos dramáticos e tensos. Houve alguns aplausos durante as intervenções de Straw e Villepin, e alguns murmúrios quando Straw olhou diretamente para o chanceler francês e o chamou pelo primeiro nome - algo inaceitável diplomaticamente.Mesmo antes de Straw anunciar a emenda à resolução, ela fora rejeitada pela França."Não podemos aceitar um ultimato enquanto os inspetores estão relatando cooperação", argumentou Villepin no conselho. Ele disse que um ultimato seria "um pretexto para a guerra"."A França não permitirá a aprovação de uma resolução que autoriza o uso automático da força", afirmou.A China e a Rússia também rejeitaram a idéia de outra resolução, mas não falaram explicitamente em veto.Com a ameaça de uma guerra se aproximando e uma votação sobre uma ação militar prestes a ocorrer, os chefes dos inspetores de armas da ONU relataram que, depois de mais de três meses de investigação, o Iraque estava sendo mais cooperativo no desarmamento. Os relatórios eram aguardados com ansiedade por países indecisos no Conselho.Apresentando um relatório no geral otimista, o chefe dos inspetores Hans Blix disse que a cooperação de Bagdá "pode ser vista como ativa, ou mesmo pró-ativa". O chefe dos inspetores de armas nucleares, Mohammed El-Baradei, fez sua declaração mais forte até agora em apoio aos esforços do Iraque."Nas últimas três semanas, possivelmente como resultado da pressão cada vez maior da comunidade internacional, o Iraque tem sido firme em sua cooperação", avaliou El-Baradei. "Espero que o Iraque continue a acelerar... seu ritmo de cooperação".Mas Powell insistiu que o desempenho de Saddam "ainda é um catálogo de não-cooperação".Powell disse que o organismo mundial "não pode se afastar" do apoio à força para desarmar o Iraque, apesar dos progressos alcançados através da pressão pelas inspeções internacionais.

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