EUA e Japão ditam rumos da economia global

Nunca antes as condições de vida de tantos seres humanos estiveram nas mãos de tão poucos. No início de 2001, a se crer no quase consenso que vem emergindo dos debates durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, a economia global depende mais do que nunca da sabedoria das decisões de política econômica dos dirigentes das maiores potências do planeta. Especialmente nos EUA e no Japão, duas economias cujo desempenho nos próximos anos pode trazer muitas alegrias ou muitas tristezas para o resto do mundo, o acerto das decisões de política econômica, em um contexto particularmente difícil e complexo, é crucial. De forma geral, a esperança de que o primeiro ano do novo milênio não represente uma ruptura radical com o ótimo desempenho da economia global no final do século anterior baseia-se na visão de que os Estados Unidos continuarão a fazer a coisa certa em termos de política econômica. Apesar da relativa inexperiência do novo time econômico do presidente George W. Bush, a confiança da elite político-econômica reunida em Davos na sabedoria do chairman do Fed, banco central americano, Alan Greenspan, funciona como uma espécie de garantia de que a economia americana (e mundial, por conseqüência) não vai desandar seriamente. Em relação ao Japão, as percepções são quase inversas. Há a convicção de que a interminável crise econômica japonesa - cujo agravamento poderia ser a gota d´água de uma quase recessão global, no caso da desaceleração americana provar-se mais brusca do que o esperado - deve-se a graves erros de política econômica. Estes erros seriam derivados de falta de liderança política, que está na base da relutância japonesa em enfrentar de forma drásticas e ousada os seus problemas econômicos. Olhando para o futuro, como disse neste sábado o vice-diretor-gerente do FMI, Stanley Fischer, "a situação japonesa é muito complicada". Por causa dos erros passados, o espaço de manobra na gestão macroeconômica do Japão diminuiu drasticamente, e as soluções hoje exigem doses cavalares de ousadia - um ingrediente escasso nos governos japoneses das últimas décadas. De qualquer forma, urgir o Japão a pelo menos tentar fazer a coisa certa parece ser um dos principais objetivos não escritos do Fórum deste ano. Sintomaticamente, o único chefe de Estado do G-7 (grupo das sete principais nações desenvolvidas) presente em Davos neste ano é Yoshiro Mori, primeiro-ministro do Japão. Os principais dilemas da economia global tiveram a sua mais categorizada análise durante um debate na sessão plenária do Fórum na manhã de sábado, reunindo um grupo de pesos-pesados: além de Fischer, participaram Lawrence Summers, o último secretário do Tesouro americano do governo Clinton, Laurent Fabius, ministro da Economia da França, Hans Eichel, ministro das Finanças alemão, e Haruhiko Kuroda, vice-ministro de Finanças do Japão. O debate foi coordenado por Sir John Browne, principal executivo da BP Amoco. Browne abriu o debate revelando ao público o resultado de uma pesquisa entre participantes do Fórum sobre quais são as principais condições para que 2001 seja um bom ano para a economia global. Previsivelmente, no topo da lista figura a continuidade dos cortes de juros pelo Fed. Depois vieram a continuidade das reformas estruturais (como a desregulação do mercado do trabalho, o ajuste do sistema previdenciário e reformas tributárias com enfoque em corte de impostos e incentivos à produção e ao investimento) na Europa e a estabilização do preço do petróleo. O Japão não foi citado, mas foi claramente uma das principais preocupações dos debatedores para 2001. Como é seu hábito, Fischer fez uma análise límpida e abrangente das perspectivas da economia global em 2001, mas com a cautela de rigor para alguém que representa o FMI. Para ele, a desaceleração mundial, puxada pelos EUA, é líqüida e certa. A revisão da última projeção de crescimento global em 2001 do FMI - feita em setembro, e que apontava 4,2% - está a pleno vapor, e não deverá superar 3,5%. Fischer frisou, porém, que o mundo está longe de uma recessão. Ele relembrou que, em diversos anos nas últimas décadas, o mundo cresceu abaixo de 2%, e que tão recentemente quanto 1998 cresceu 2,5%. As projeções para 2001 ainda estão bem acima daquela marca. As principais causas da desaceleração americana - e, por decorrência, global - em 2001 são fatos ocorridos no ano passado na visão do vice-diretor-gerente: a alta dos preço do petróleo, o aperto monetário nos EUA e a queda dos mercados acionários. Juntos, este fatores empurraram para baixo a lucratividade das empresas. Fischer previu que os EUA cresçam em torno de 2,5% em 2001, com os dois primeiros trimestres fracos, mas acima de zero, e recuperação no segundo semestre. "Mas há risco de uma desaceleração mais drástica." Como todos os outros debatedores, ele frisou que o grande trunfo americano é o "espaço de manobra" nas políticas monetária e fiscal. Como os juros básicos ainda estão em 6%, eles podem ser cortados em muitos pontos porcentuais para reanimar a economia. E como os EUA vêm acumulando superávits fiscais e recomprando sua dívida pública, há amplo espaço para cortes de impostos ou aumentos de despesas, outra forma clássica de estimular a demanda.Com o republicano Bush no poder, ninguém cogita em aumento de gastos. O propalado corte de impostos do novo presidente galgou um novo patamar de aceitação no establishment financeiro mundial depois que Greenspan deu a sua bênção, há poucos dias. Hoje, foi a vez de Fischer. Com a ressalva de que normalmente a política fiscal não deve ser usada para corrigir as oscilações do ciclo econômico, ele disse que, neste momento particular, o corte de Bush pode ajudar a evitar uma recessão. Summers, por sua vez, observou que o atual ciclo econômico americano assemelha-se mais ao que ocorria antes da Segunda Guerra Mundial do que depois. No pós-guerra até o início da atual expansão no começo dos anos 80 (descontando-se a rápida recessão de 1990), o crescimento era interrompido pela inflação e o conseqüente aperto da política monetária para combatê-la. Agora, o que se vê é um "ciclo de crédito" - a expansão leva a um inchaço de investimentos e do preço dos ativos, criando-se capacidade excessiva, até um ponto em que a correção destes desequilíbrios torna-se inevitável. A queda dos ativos e a contração do crédito e dos investimentos, neste caso, pode levar à recessão. O remédio, quando a reviravolta potencialmente recessiva acontece, é cortar os juros, para estimular o crédito e facilitar a reestruturação do excesso de dívidas. Summers está otimista em relação a um desfecho positivo da atual desaceleração, com cortes de juros na medida certa para afastar a recessão. Isto aconteceu em 1994/95, ele observou, e a grande novidade agora, caso Greenspan seja bem-sucedido, é que seria a primeira vez que uma expansão no pós-guerra sobreviveria a dois engasgos (o primeiro em 94/95).

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