''EUA e Rússia deviam ter escudo contra o Irã''

Henry Kissinger, Ex-secretário de Estado americano (1973-1977)

Entrevista com

Nathan Gardels, Global Viewpoint, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2010 | 00h00

Como o sr. vê o novo tratado nuclear entre EUA e Rússia, a reformulação da estratégia americana para o uso de armas atômicas e a recente reunião com líderes mundiais sobre a segurança nuclear, em Washington?

O Start (acrônimo em inglês para Tratado Estratégico para a Redução de Armas) é um passo significativo para um recomeço nas relações entre Rússia e EUA. As reduções anunciadas são marginais em sua substância e serão realizadas, em parte, por meio de alterações nas regras de contagem. Trata-se de um passo útil que merece a ratificação. Também concordo com as novas diretrizes para o uso de armas nucleares nos EUA. Entretanto, a declaração de que os EUA não responderiam com armas nucleares a ataques biológicos e químicos é demasiadamente explícita. Certa ambiguidade deveria ser mantida nessa questão. Quanto à recente reunião de cúpula entre líderes mundiais, é fundamental controlar o material físsil em todo o mundo, especialmente com a difusão do uso civil da energia nuclear.

Os EUA já propuseram no passado compartilhar um sistema de defesa antimísseis com a Rússia na Europa. É uma proposta realista? Será uma boa ideia?

Sou a favor do desenvolvimento de um sistema conjunto de defesa antimísseis contra o Irã em parceria com a Rússia. Mas os EUA precisam também de sistemas de defesa controlados pelos americanos contra ataques estratégicos vindos de outras direções. Assim, devemos cooperar com a Rússia no caso do Irã, mas não podemos abrir mão de sistemas antimísseis destinados à contenção de outras ameaças.

Como lidar com a China hoje?

Esse é o grande desafio ainda sem solução na geopolítica atual. Há perspectivas para uma abordagem construtiva em relação a uma série de novos interesses comuns que nunca foram enfrentados no âmbito global - mudança climática, proliferação nuclear - que exigirão da política externa de ambos os países um alcance sem precedentes.

A China apoiará sanções contra o Irã?

A questão é como definir as sanções. A ideia não é estabelecer sanções por si mesmas, mas determinar o impacto que elas terão no Irã. Acredito que a China tenha consciência do perigo da proliferação nuclear.

Como o sr. avalia o Bric? Qual será o papel desempenhado por esse bloco no palco mundial?

A pergunta é se os Brics serão capazes de alinhar suas políticas em um bloco coerente. China, Rússia, India e Brasil não são candidatos à formação de um grupo que exclua os EUA, e muito menos que os confronte. Eles são diferentes do movimento não-alinhado dos anos 70 e 80 porque não são mais países em desenvolvimento. Além disso, o movimento não-alinhado tentava se colocar entre os EUA e a União Soviética. Quem são as potências entre as quais o Bric pretende se situar?

Eles se opõem aos EUA e ao FMI, por exemplo.

É retórica. Eu ficaria surpreso se eles chegassem a uma posição política comum e coerente.

/ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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