EUA e Rússia firmam acordo para reduzir em um terço arsenais atômicos

O presidente americano, Barack Obama, e o líder russo, Dmitri Medvedev, assinaram ontem um acordo histórico que reduz em um terço o número de ogivas nucleares ativas de cada país. O novo pacto para controle de armas nucleares, chamado de Start, foi um sinal do forte compromisso do governo americano com o desarmamento nuclear, embora seus resultados práticos sejam modestos.

Patrícia Campos Mello, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2010 | 00h00

Juntos, EUA e Rússia têm 20 mil armas nucleares ? entre armas ativas e em estoque, mísseis, armas menores, chamadas de táticas, e bombas. O acordo reduz apenas o número de alguns tipos de armas ? de 2.200 para 1.550 ogivas nucleares ativas em cada país, e de 1.600 para 800 em cada país os veículos para transporte dessas ogivas, como bombas, mísseis e submarinos. Ainda vão sobrar armas nucleares suficientes para destruir o mundo algumas vezes. O acordo também estabelece mecanismos de verificação, que haviam expirado em dezembro e eram parte do tratado Start anterior.

Matias Spektor, pesquisador do Council on Foreign Relations, disse ao Estado que o acordo "é importante porque indica uma desaceleração nuclear, mas a redução no número de armas ainda é pequena". "É uma missão de muito longo prazo, como disse Obama", afirmou Spektor. O acordo também indica um recomeço nos laços com a Rússia, que chegaram a seu ponto mais baixo em agosto de 2008, após a invasão da Geórgia.

"O dia de hoje é um marco importante para a segurança nuclear, a não-proliferação e as relações entre Rússia e EUA", disse Obama, após a cerimônia de assinatura do acordo, em Praga. Foi nessa cidade que Obama fez um discurso marcante, prometendo "um mundo sem armas nucleares", há um ano. O líder americano disse que o acordo reduz de forma significativa os arsenais nucleares, mas sem ameaçar a segurança dos EUA.

Medvedev afirmou que se trata de "um evento histórico" que inaugura uma nova era nas relações entre EUA e Rússia, equilibrando os interesses das duas partes.

Com o anúncio do pacto, Obama espera ter cacife político para pressionar outros países a reduzir seus estoques nucleares e forçar países como o Brasil a concordar com o protocolo adicional da ONU para não-proliferação nuclear. Inspeções mais abrangentes e frequentes em países signatários do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, além de sanções contra o Irã, certamente serão tema da cúpula de segurança nuclear que começa na segunda-feira em Washington, e terá participação de 40 líderes mundiais, entre eles o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Ontem, em Praga, Obama e Medvedev voltaram a discutir possíveis sanções contra o Irã. Teerã diz que seu programa nuclear tens fins civis, mas os EUA e a Europa acusam os iranianos de estar desenvolvendo armas nucleares. Obama disse que espera ter aprovadas sanções "fortes e duras" contra o Irã durante a primavera do Hemisfério Norte (a partir do dia 21). "Os países que se recusarem a cumprir suas obrigações serão isolados", disse Obama. Medvedev manifestou apoio a medidas contra Teerã, mas deixou claro que a Rússia só concordará com sanções que não atinjam o povo iraniano.

O tratado assinado ontem vai valer por dez anos e ainda precisa ser aprovado pelo Senado americano (com 67 votos, ou seja, necessita do apoio de pelo menos 8 republicanos) e pela legislatura russa.

O acordo é ambíguo em relação à possibilidade de os EUA aumentarem seus sistemas de defesa antimíssil no Leste Europeu, o que é encarado com grande resistência pelo Kremlin. Obama disse que as defesas não ameaçam a Rússia e prometeu negociações futuras sobre o tema, mas enfatizou que não fará nada que limite sua "capacidade de proteger o povo americano".

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