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KEVIN LAMARQUE/AFP
KEVIN LAMARQUE/AFP

EUA e Rússia chegam a acordo sobre conflito sírio

O secretário de Estado americano, John Kerry, e o chanceler russo Serguei Lavrov, pediram a todos os atores envolvidos na guerra na Síria que um cessar-fogo seja respeitado a partir da segunda-feira 12

Jamil Chade CORRESPONDENTE/ GENEBRA, O Estado de S. Paulo

09 de setembro de 2016 | 19h57

GENEBRA - EUA e Rússia chegaram nesta sexta-feira, 9, a um acordo para reduzir a violência na Síria e, assim, abrir espaço para uma negociação de paz que possa dar fim ao conflito. Pelo pacote negociado em Genebra por mais de 15 horas, americanos e russos lutarão pela primeira vez de forma conjunta contra o Estado Islâmico e a Frente al-Nusra, um cessar-fogo entrará em vigor na segunda-feira 12 e o governo de Bachar Assad aceitou não bombardear diversas áreas. 

Diplomatas russos e americanos confirmaram ao Estado que, apesar de outros esforços de cessar-fogo terem fracassado, desta vez o acordo vai muito além do fim das hostilidades. Pela primeira vez, ele estabelece uma coordenação militar real entre Washington e Moscou para a luta contra o terrorismo. O Kremlin ainda insiste que esse é, na prática, o fim do isolamento militar russo, depois da crise aberta em razão do conflito na Ucrânia. 

O anúncio do acordo também foi a primeira ocasião em que a Casa Branca não colocou a saída de Assad como uma pré-condição para que houvesse uma negociação. "Esse é o começo de uma nova relação", admitiu o chanceler russo Serguei Lavrov, em uma entrevista na madrugada de sexta ao lado do secretário de Estado americano, John Kerry.

Dando um tom ambicioso ao acordo, o chefe da diplomacia americana chegou a apontar que o plano poderia ser "o ponto de virada" no conflito que já deixou mais de 250 mil mortos. Mas ele afirmou que o presidente Barack Obama apenas aceitou a iniciativa depois que recebeu um compromisso do Kremlin de exigir de Assad que também cumpra o acordo. "Acreditamos que a Rússia tem a capacidade de pressionar o regime Assad a parar esse conflito e negociar a paz", disse Kerry.

"Apesar de toda a desconfiança, chegamos a um pacote de documentos que permite que se possa lutar contra o terrorismo, expandir a ajuda humanitária e acabar com a violência. Isso tudo cria as condições para que possamos voltar a negociar a paz", afirmou Lavrov.

A primeira parte do acordo se refere a um cessar-fogo. "O dia 12 será o dia D nesse conflito", disse o russo. "Primeiro, ele valerá por 48 horas, depois por mais 48 horas e, depois, de forma permanente", explicou Lavrov. 

Durante sete dias, Assad ainda se compromete a afrouxar os ataques contra a cidade de Alepo e permitir que as 300 mil pessoas sitiadas há meses possam receber ajuda humanitária.

A segunda parte do acordo promete mudar a lógica do conflito. "Depois de sete dias, se o cessar-fogo vingar, vamos criar um centro conjunto de implementação onde ambos os países terão seus militares sentados na mesma mesa e separando opositores moderados dos terroristas. Ataques conjuntos serão realizados depois de acordos entre EUA e Rússia contra esses terroristas", explicou Lavrov. 

Americanos se queixavam do fato de que os russos, alegando que estavam atacando terroristas, acabavam impedindo qualquer avanço da oposição moderada contra Assad. Já os russos alegavam que a oposição moderada atuava ao lado da Frente al-Nusra, considerado um grupo terrorista, o que impedia uma definição das áreas de combate. 

Na sexta, Kerry admitiu essa "indefinição", para a satisfação de Lavrov. Mas fez um alerta aos grupos de oposição para que se afastem dos terroristas e garantiu que vai exigir que seus aliados não atuem ao lado da Frente al-Nusra. 

Questionado se esse não seria apenas mais um cessar-fogo fadado ao fracasso, como outros, Kerry garantiu que, desta vez, o entendimento é mais sólido. "Criamos uma nova estrutura. Das outras vezes, Assad continuava a bombardear, mesmo com acordos de cessar-fogo. Quem estava cumprindo o acordo dizia que precisava responder. Além disso, havia uma confusão entre quem eram opositores e terroristas. Agora, vamos trabalhar juntos para determinar isso."

Damasco. Pelo novo acordo, a Força Aérea de Assad, que por anos foi denunciada por manter ataques e violar acordos, ficará proibida de fazer operações em diversas regiões. Segundo Moscou, o presidente sírio ja foi informado do plano e estaria de acordo. "Se esse acordo vingar, então teremos ações coordenadas para derrotar terrorismo e facilitar transição política", disse o americano.

Staffan de Mistura, mediador da ONU para o conflito na Síria, comemorou o acordo. "Esse entendimento pode permitir a volta da negociação, com a ajuda humanitaria voltando a ser distribuída", disse. "A vontade política cria uma janela de oportunidade real", completou.

Depois de cinco anos de fracassos, porém, a ordem entre os ministros era de cautela. "Ninguém pode dar certeza de que isso funcionará", disse Lavrov. Kerry adotou o mesmo tom. "Ninguém construiu esse plano baseado na confiança. Essa é uma oportunidade e nada mais que isso até que se torne uma realidade", disse. 

Sua cautela não era causada apenas por conta de dez meses de negociações fracassadas. Dentro do governo Obama, uma parcela da cúpula da Casa Branca era contra o atual acordo com os russos. Alguns dos ministros de Obama, como Ashton Carter (Defesa), acusam Moscou de estarem usando a negociação para permitir que Assad ganhe tempo em seus ataques. 

Enquanto Lavrov e Kerry se reuniam, o governo sírio realizava uma ofensiva sobre Alepo, recapturando um dos bairros estratégicos na cidade e bombardeando locais já sitiados. Pelo menos nove civis morreram. 

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