EUA e Rússia ''recomeçam'' relação

Durante encontro em Genebra, Hillary e Lavrov prometem virar a página de histórico de hostilidades da era Bush

Jamil Chade, GENEBRA, O Estadao de S.Paulo

06 de março de 2009 | 00h00

A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, deu um presente ao ministro de Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, ontem, em Genebra: uma caixa com um botão vermelho. Simbolicamente, significava o botão de "reset", para recomeçar a relação entre as duas potências. Os dois países concordaram em virar a página do período de George W. Bush.Mas, com uma agenda sobrecarregada e contaminada, a diplomacia dos dois países admite que o trabalho será grande para superar as diferenças. "Esse é um novo começo. Não temos tempo a perder. Mas recomeçar a relação entre EUA e Rússia levará tempo", ressaltou Hillary.O encontro marcou o fim da primeira visita de Hillary à Europa e foi o primeiro cara a cara com Lavrov. "Não concordamos em todos os pontos. Mas concordamos em trabalhar sobre tudo", afirmou o ministro russo.No início de abril, os presidentes Barack Obama e Dmitri Medvedev terão seu primeiro encontro bilateral, à margem da reunião do G-20 em Londres. Um dos pontos de convergência é o de relançar negociações para renovar até o final do ano o acordo de redução dos arsenais nucleares - o último entendimento da Guerra Fria sobre o tema, o Start-1, expira este ano. "O acordo que temos hoje é obsoleto e faremos de tudo para obter um entendimento", disse Lavrov. Hillary, porém, evitou responder se os EUA aceitariam um mecanismo de verificação, como querem os russos. Outro ponto importante para os dois países diz respeito à criação de mecanismos para evitar que material nuclear caia na mão de "atores irresponsáveis".Hillary ainda deu declarações indicando que Washington estaria disposto a discutir sobre o projeto de instalar um escudo antimísseis no Leste Europeu, rejeitado pelos russos. "Acreditamos que temos a oportunidade de cooperar em termos de Defesa e mísseis", disse a secretária de Estado.Em uma carta aos russos, Obama insinuou que está disposto a rever seus sistema antibalístico. Mas precisaria ter o apoio russo na pressão contra o programa nuclear iraniano.Lavrov, porém, mostrou que o trabalho para superar as diferenças será grande. Washington quer que o Kremlin desista de vender mísseis ao Irã. Mas o russo garantiu que a venda de mísseis defensivos para Teerã é legítima. Lavrov prometeu, no entanto, levar em consideração a preocupação de EUA e Israel sobre o tema. Do lado russo, a meta é que o país seja visto por Washington como uma potência, depois de anos que considerou de "menosprezo" por parte de Bush. "Temos de limpar os vestígios do passado", afirmou Lavrov. O chanceler russo também defendeu uma maior relação comercial entre os dois países.Mas pontos de divergência também surgiram no encontro. Antes do encontro, Hillary destacou que não concorda com os esforços de Moscou para evitar a adesão de países do Leste Europeu à Otan - além de usar a energia como "instrumento de intimidação". "Nossa relação com a Rússia não vai minar nosso apoio a países como a Geórgia", disse Hillary. "Esses países têm o direito de ser independentes e escolher caminhos sem a interferência da Rússia."

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