EUA e Rússia se unem por cessar-fogo e corredores humanitários na Síria

Pressão diplomática. Na França, secretário de Estado de Washington e chanceleres de Moscou e Paris indicam avanço em um esforço para um armistício e para a assistência a civis antes de reunião na Suíça em busca de uma solução política para crise síria

Andrei Netto, Correspondente - O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2014 | 02h08

PARIS - Representantes das diplomacias dos EUA e da Rússia anunciaram ontem, em Paris, avanços em um plano para que um cessar-fogo seja imposto na Síria antes do dia 22, data do início da conferência de Genebra 2. Também seria estabelecido um corredor humanitário para permitir assistência às vítimas do conflito. A cúpula pretende alcançar uma solução política aos quase três anos de guerra civil em território sírio.

O anúncio foi feito após uma rodada de discussões em Paris entre o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, e os ministros das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, e da França, Laurent Fabius.

Os debates em torno do cessar-fogo foram iniciados por Lavrov. Kerry, em um pronunciamento em Paris, confirmou que o tema constou da agenda dos ministros. "Nós discutimos hoje a possibilidade de encorajar um cessar-fogo, talvez restrito a Alepo, para começar", informou o secretário de Estado, referindo-se à segunda maior cidade do país, transformada há um ano e meio no maior front da guerra entre rebeldes, seculares e jihadistas, de um lado, e forças pró-Assad, de outro. "Tentaremos ver se é possível colocá-lo em prática."

O cessar-fogo, ainda que limitado a Alepo, é uma das condições impostas pela Coalizão Nacional Síria (CNS) para participar de Genebra 2, juntamente com a renúncia do presidente Bashar Assad e o exílio de toda a família do ditador. A segunda hipótese é descartada pelo regime de Damasco, que não aceita a imposição.

Assistência. Além da suspensão do conflito, Lavrov levantou a possibilidade de que o governo de Assad aceite a abertura de corredores humanitários no país. O objetivo é permitir a retirada de feridos e o fornecimento de alimentos às populações cercadas pelo conflito. De acordo com a ONU, esse é o caso de Ghouta, na periferia de Damasco, onde parte da população de 160 mil habitantes estaria passando fome em razão do cerco dos rebeldes imposto pelas Forças Armadas.

Lavrov ressaltou, porém, que espera reciprocidade da parte da CNS, que também precisaria suspender os ataques e dar garantias para a abertura dos corredores. "Nós esperamos medidas similares de parte da oposição", advertiu. Kerry se mostrou comedido sobre a possibilidade.

"Julgaremos os resultados. Mas a existência dessa possibilidade é bem-vinda", afirmou, revelando ainda que as negociações incluem a chance de troca de prisioneiros dos dois lados em guerra.

Por outro lado, Rússia e EUA mantêm as divergências sobre a eventual presença de uma delegação do Irã em Genebra. Lakhdar Brahimi, mediador nomeado pela ONU para o conflito, ainda não tinha enviado convite ao país - mesmo que a Arábia Saudita, apoiadora da rebelião, tenha sido convidada.

Ontem, Lavrov condicionou a participação dos sauditas à dos iranianos. "É muito claro que o Irã e a Arábia Saudita devem participar dessa conferência", ressaltou. Segundo Kerry, a hipótese de que haja uma delegação do Irã pode ser aceita caso Teerã esteja de acordo sobre o princípio de uma transição política na Síria - ou seja, sobre a renúncia de Assad e o exílio de sua família. Integrantes do governo sírio têm afirmado que Assad pretende se candidatar em eleições previstas para junho.

No domingo, o chanceler da França reforçou na reunião em Paris dos "Amigos da Síria", da qual participaram 11 países que apoiam a oposição moderada síria, que a partida de Assad, pivô do conflito que já deixou 130 mil mortos, é uma precondição para qualquer tipo de entendimento.

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