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EUA e Rússia têm causa comum na Síria?

Enquanto Rússia forma uma nova cooperação com a França e aviões russos derrubam bombas sobre alvos do Estado Islâmico (EI) na Síria, os ataques em Paris podem impelir Moscou e Washington no sentido de uma maior aproximação.

JAMES ROSEN, MIAMI HERALD

20 de novembro de 2015 | 02h01

Quando a Rússia anunciou, na terça-feira, ter realizado 2.300 ataques aéreos durante dois dias contra alvos do grupo extremista sunita perto da sua base em Raqqa, pela primeira vez o Pentágono elogiou o Kremlin desde que caças russos começaram a bombardear a Síria, em 30 de setembro.

"Esses ataques aéreos, pelo menos a partir dos nossos postos de observação, parecem ter atingido território controlado pelo EI", disse o secretário de imprensa do Pentágono, Peter Cook. "Acolhemos com satisfação qualquer esforço sincero da parte dos russos no sentido de um papel mais construtivo na Síria", acrescentou ele.

Com os caças russos sobrevoando Raqqa juntamente com aviões americanos, Moscou também avisou antecipadamente a Washington sobre suas recentes operações contra o EI, disse Cook, como é exigido pelo acordo de segurança da aviação assinado no mês passado pelos governos dos dois países.

Com base no acordo, firmado em 20 de outubro, Rússia e Estados Unidos criaram frequências de rádio especiais através da quais os pilotos se comunicam entre si e foi estabelecida uma linha telefônica direta entre os líderes militares dos dois países para evitar uma colisão em pleno ar ou outras situações perigosas.

Mudanças. O Pentágono criticou o Kremlin durante semanas, afirmando que aviões russos vinham atacando oponentes moderados do presidente sírio Bashar Assad - entre eles, rebeldes treinados e equipados por Washington - e lançando ataques aéreos contra áreas onde não havia nenhum combatente do EI.

Na terça-feira, o Ministério das Relações Exteriores da Rússia demonstrou sua solidariedade com a França, enviando por Twitter uma imagem da bandeira francesa atrás de um sinal de paz cujos contornos se assemelhavam a um Tupolev TU-160 supersônico, um bombardeiro russo importante e o maior avião de combate do mundo.

O embaixador francês em Moscou, Jean-Maurice Ripert, agradeceu aos russos pela "simpatia e solidariedade". "Rússia e França estão determinados a prosseguir em seus esforços conjuntos contra o terror e a lutar pela vitória da liberdade", disse ele.

Na segunda-feira, o presidente francês François Holland apelou a Rússia e Estados Unidos para deixarem de lado suas diferenças e se unir à França no combate ao grupo extremista.

Em Moscou, no dia seguinte, o ministro russo das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, visitou a embaixada francesa, onde assinou o livro de condolências pelos ataques terroristas ocorridos em Paris na noite de sexta-feira.

"Os planos infames do EI têm de ser contidos", disse o ministro. "Nossa dor e nossa cólera nos ajudarão a passar por cima de tudo o que não é essencial e unir Rússia, França e todos os países na inexorável luta contra o terrorismo, formando uma coalizão de combate efetivamente global."

Outro atentado. A campanha aérea acelerada da Rússia contra o EI começou quando as autoridades russas anunciaram ter concluído que uma bomba derrubara o avião russo da Metrojet logo após decolar da cidade balneária de Sharm el-Sheikh, no Egito, em direção a São Petersburgo, no dia 31. Todas as 224 pessoas a bordo morreram.

"Podemos afirmar, sem dúvida, que se tratou de um ataque terrorista", disse o diretor do Serviço de Segurança Federal Russo, Alexander Bortnikov, ao presidente Vladimir Putin durante uma reunião entre os dois transmitida pela TV.

Bortnikov afirmou que uma bomba caseira com explosivo equivalente a um quilo de TNT foi colocada no avião. O grupo Província do Sinai, braço egípcio do EI, assumiu a responsabilidade pelo ataque.

Descrevendo a derrubada de um avião comercial como ato de guerra, o ministério das Relações Exteriores da Rússia insistiu para outras nações "se juntarem aos esforços para exterminar a ameaça terrorista global".

Medidas. O Kremlin já exortou o Conselho de Segurança das Nações Unidas "a não perder tempo e finalizar um projeto de resolução sobre a formação de uma ampla frente de combate ao terrorismo".

Tal medida por parte do Conselho de Segurança afastaria os Estados Unidos da liderança da campanha contra o EI. Cook disse que ainda é possível que os Estados Unidos incluam a Rússia em sua coalizão contra os extremistas, que Washington afirma contar com 65 nações.

"Não descartamos isso, salvo que até esse ponto as ações russas foram em grande parte em apoio ao regime Assad, o que acreditamos ser contraproducente para o resultado final que é pôr fim à guerra civil síria", afirmou.

Mas, no Congresso americano, mesmo alguns dos mais ferozes críticos do Kremlin no passado acolheram bem a ideia de vínculos mais estreitos entre Moscou e Washington. O senador Dan Coats, republicano do Estado de Indiana, que defendeu sanções econômicas severas contra a Rússia em razão do conflito na Ucrânia, disse que a intensificação da crise desde os ataques em Paris exige que os dois países deixem de lado suas divergências nessa luta contra o EI.

"Como aprendemos em 1941, uma emergência nacional cria aliados estranhos", afirmou ele no Senado.

O parlamentar referia-se à 2.ª Guerra, quando, após a ruptura do pacto germano-soviético pelos alemães e superando suas diferenças ideológicas, Estados Unidos e União Soviética formaram uma aliança crucial que ajudou a derrotar a Alemanha nazista.

Há 20 meses, Moscou proibiu Coats e outros parlamentares de viajarem para a Rússia por causa das duras críticas feitas por eles na questão da Ucrânia, o que levou o senador de Indiana a observar com sarcasmo: "Estou frustrado por não poder passar minhas férias com minha família na Sibéria"./ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*JAMES ROSEN É COLUNISTA

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