EUA e Sharon conseguiram unir os árabes

Finalmente, os europeus se mexeram. Seuschanceleres se reuniram nesta quarta-feira em Bruxelas para analisar odrama do Oriente Médio, dizendo ser urgente obter de ArielSharon a suspensão das ações militares na Cisjordânia.Então, decidiram enviar uma missão para convencer Sharon a pôrem prática a resolução 1.402 da ONU, que intima Israel a retirarsuas tropas das cidades palestinas.A Europa avançou assim a passos largos na direção certa. Mashouve um problema: Sharon vetou um encontro dos enviados comYasser Arafat, prisioneiro em Ramallah.Bruxelas fez o que pôde. Mas Sharon, por uma parte, e osEstados Unidos, por outra, conseguiram criar, em alguns dias, umgrande imbróglio, que parece uma calamidade. Uma calamidade paraSharon.Ele conseguiu reunir em favor da luta a outra metade dospalestinos que não queria a intifada. Causou náusea não só àmaior parte dos europeus, mas até mesmo a uma parte (pequena, éverdade) dos próprios israelenses. Fez com que os Estados árabes geralmente antagônicos, se unissem.Mas quem sofreu o fracasso mais pesado foram os EUA. No espaço de alguns dias, o soberbo sucesso que significou para George W.Bush a "coalizão anti-Bin Laden" transformou-se em desastre.Um episódio desempenhou seu papel nisso: a viagem realizadarecentemente pelo vice-presidente Dick Cheney, que percorreu ascapitais árabes a fim de pedir apoio para as operações militaresque o Pentágono preparava contra o Iraque.Essa viagem exerceu um peso muito grande sobre toda a região: mostrou aos árabes que Washington não tinha nenhum plano sério contra o Iraque. Outra conseqüência deplorável da viagem deCheney: os árabes viram que os americanos não levavam absolutamente em conta seus aliados da Europa. Daí o fracassocompleto de Cheney.E os efeitos foram imediatos: os árabes, embora detestem oIraque, se reconciliaram espetacularmente com Saddam Hussein. Agora, parece que Washington compreendeu finalmente suaestupidez. E, como sempre, é o secretário de Estado, ColinPowell, que recebe a pesada incumbência de tentar reequilibrar aatitude dos EUA diante do mundo árabe e também perante aEuropa.Enquanto, ainda um dia antes, o secretário da Defesa, DonaldH. Rumsfeld, defendia as posições mais radicais a respeito doOriente Médio, Powell já mudara bruscamente o tom na quarta-feira. Disse que "um processo diplomático deverá serempreendido mesmo sem a condição prévia de um cessar-fogo".Palavras de esperança. Mas a linha da Casa Branca é tão tênuee contraditória que nos limitamos apenas a notar esta evoluçãosem nos arriscar a esperar milagres.

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