EUA e Taleban reduzem exigências e anunciam início de diálogo em Doha

Transição. Acerto é revelado no dia em que governo afegão começou a assumir segurança interna, após dois anos de tentativas de negociação; porta-voz do grupo radical promete não ameaçar outros países e americanos esperam que mudança enfraqueça Al-Qaeda

DENISE CHRISPIM MARIN , CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

19 Junho 2013 | 02h10

Após dois anos de tentativas, os EUA negociarão com líderes do Taleban no fim do mês em Doha, no Catar. O início das conversas sobre a paz no Afeganistão foi anunciado ontem, quando o governo afegão começou a assumir a responsabilidade por sua segurança interna.

Até dezembro de 2014, as forças americanas e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) terão de repassar a Cabul 100% dessa tarefa, deixar o país e pôr fim a 13 anos de guerra. Ambos os lados cederam em suas precondições anteriores para permitir o início das chamadas "negociações de paz e reconciliação". O anúncio deu-se depois de o porta-voz do Taleban, Mohamed Naim, ter declarado que o grupo não mais usará o Afeganistão como base para ameaçar outros países. Essa promessa é tida pelo governo americano como o primeiro passo para os insurgentes afegãos gradualmente romperem seus laços com a Al-Qaeda e suas filiais.

"Esse é um primeiro passo, mas teremos uma longa estrada. Há muito tempo dizemos que esse conflito não será vencido no campo de batalha", afirmou uma autoridade da Casa Branca a jornalistas, sob condição de anonimato.

O Taleban confirmou a abertura de um escritório em Doha para servir como base para as negociações e também para os seus contatos com as Nações Unidas, outros organismos internacionais, representantes de distintos governos e a imprensa estrangeira. A decisão foi aplaudida pelos EUA que, depois de sua primeira conversa com o Taleban, não pretendem interferir diretamente nas negociações entre os insurgentes e o governo afegão.

"O núcleo desse processo não será a conversa entre os EUA e o Taleban. Podemos ajudar no processo, mas o cerne será a conversa entre os afegãos", afirmou o colaborador da Casa Branca. "O nível de confiança é extremamente baixo (entre o Taleban e o governo). Por isso, não será nada fácil. A paz não está à altura da mão."

O presidente afegão, Hamid Karzai, confirmou que enviará membros do Alto-Conselho de Paz a Doha para negociar com a delegação do Taleban, a ser autorizada pelo mulá Mohamad Omar. A primeira rodada deverá definir um calendário de negociações, sem tocar em temas substantivos. Karzai, entretanto, mostrou-se insatisfeito com o fato de as conversas se darem fora de seu país e levantou suspeitas sobre o uso do escritório em Doha como base para que o Taleban restabeleça sua legitimidade política no Afeganistão.

"Espero que nossos irmãos do Taleban entendam que o processo vai ser transferido para o nosso país em breve", disse Karzai. "A paz é um desejo e uma esperança do povo afegão, que se sacrifica todos os dias."

Até o ano passado, os EUA exigiam do Taleban o rompimento de sua aliança com a Al-Qaeda e a renúncia à violência para iniciar as conversas. O Taleban insistia na retirada das forças da Otan, como precondição, e Karzai queria as conversas conduzidas em terreno afegão.

Ontem, Karzai anunciou o início da transição da segurança interna do Afeganistão da Otan para o governo local. Trata-se de uma das etapas do cronograma que começou a ser adotado em março de 2011, com a montagem e a preparação técnica das forças afegãs. "Nossas forças de segurança estarão na liderança daqui para a frente", afirmou Karzai.

O secretário-geral da Otan, Anders Rasmussen, afirmou que a organização continuará a dar apoio às forças afegãs, mas não mais planejará, executará ou liderará as operações. "Eles (soldados afegãos) demonstraram admirável determinação. Há dez anos, não havia forças de segurança nacional no Afeganistão. Hoje, há 350 mil soldados e policiais, uma força formidável."

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