Sharif Karim/Reuters
Sharif Karim/Reuters

EUA e Turquia pedem transição democrática síria

Em comunicado conjunto, americanos e turcos defendem fim da violência contra os protestos da oposição e da ditadura de Assad

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE / NOVA YORK - Em um sinal claro de que se está distanciando de Damasco, a Turquia - uma das principais aliadas do presidente sírio, Bashar Assad, até antes do início dos levantes por sua saída, em março - divulgou ontem um comunicado conjunto com os Estados Unidos defendendo uma transição democrática na Síria e o fim imediato da violência contra as manifestações da oposição.

 

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Durante um telefonema, o presidente americano, Barack Obama, e o premiê turco, Recep Tayyip Erdogan, "reiteraram a profunda preocupação com o uso da violência por parte do governo sírio contra civis", segundo um comunicado da Casa Branca. Segundo o texto, os dois líderes afirmaram que "as reivindicações da população síria de uma transição para a democracia devem ser atendidas". Obama e Erdogan acrescentaram que "o derramamento de sangue deve ser interrompido imediatamente" e os dois "países monitorarão os acontecimentos antes de realizar consultas nos próximos dias".

A conversa entre os líderes dos EUA e da Turquia ocorreu dois dias depois de o chanceler turco, Ahmet Davutoglu, reunir-se com Assad em Damasco e adverti-lo de que a violência precisava acabar imediatamente. Em seguida, o presidente sírio disse que é um direito soberano de seu país combater grupos opositores, classificados por ele como "terroristas e milícias armadas".

Segundo a porta-voz do Departamento de Estado, Victoria Nuland, ao menos 34 pessoas já morreram desde esse encontro, o que teria irritado a Turquia e deixado claro que Assad não está disposto a interromper a repressão.

O distanciamento turco intensifica o isolamento da Síria. Após décadas de relações estremecidas, os dois países haviam se aproximado nos últimos anos graças à política de Erdogan de engajamento com o mundo árabe. Acordos comerciais foram estabelecidos e os investimentos da Turquia foram considerados fundamentais para Damasco.

Para os EUA, o apoio da Turquia na questão síria é fundamental justamente pela pouca margem de manobra que Washington possui em Damasco. Com sanções unilaterais impostas há anos, os americanos não possuem poder econômico suficiente para afetar a Síria. Segundo a porta-voz, "os dois países estudam uma forma de pressionar a Síria economicamente".

Apesar do endurecimento do tom, Washington ainda evita pedir formalmente a saída do presidente sírio. O porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, repetiu ontem que "a Síria seria um lugar melhor sem ele (Assad), que já perdeu sua legitimidade e a oportunidade de liderar uma transição reivindicada pelo povo sírio". Questionada pela CBS sobre por que os EUA ainda não pediram a renúncia de Assad, a secretária de Estado, Hillary Clinton, disse que Washington quer que outras nações também se manifestem.

Os EUA, segundo Carney, estão tentando isolar cada vez mais a Síria. O embaixador americano em Damasco, Robert Ford, advertiu o governo sírio de que novas sanções devem ser aprovadas se a violência continuar. Mas essa forma de pressão tem sido ignorada pela Síria.

Além da Turquia e dos países da União Europeia, outras nações, no Oriente Médio, têm adotado uma posição próxima à dos EUA. Arábia Saudita, Kuwait e Bahrein - que também têm reprimido duramente protestos da oposição - retiraram seus embaixadores de Damasco.

Brasil, Índia, África do Sul, China e Rússia preferem seguir o diálogo com o regime de Damasco e afirmam que Assad ainda pode liderar uma transição no país. O posicionamento desses países inviabiliza a aprovação de uma resolução contra a Síria no Conselho de Segurança da ONU.

Confrontos. Ontem, em mais um dia de violência, 17 pessoas morreram em uma operação militar das forças de Assad contra a localidade de Saraqeb, norte da Síria. O regime também interrompeu a ampla ofensiva em Hama que deixou dezenas de mortos e retomou o controle da cidade, que está sob toque de recolher. Grupos de direitos humanos dizem que 2 mil pessoas já foram mortas na repressão.

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