"EUA espionam franceses desde Charles De Gaulle"

Dirigentes políticos e da área econômica tendem a negligenciar proteção de suas telecomunicações, afirma cientista político

O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2015 | 02h04

O senhor está surpreso com as revelações sobre a espionagem do Palácio do Eliseu pela NSA?

Não, nem um pouco. A NSA existe desde 1952. Em 1999 e 2000 houve o escândalo Echelon, de espionagem industrial e econômica, quando se descobriu que satélites americanos interceptavam milhões de comunicações telefônicas, de telex, de fax, de e-mail, etc. Há muito sabemos que isso é possível e, desde as revelações de WikiLeaks e Edward Snowden, sabemos que os EUA usam enormes meios tecnológicos para espionar temas políticos e econômicos que interessam.

O fato novo é que os EUA espionam o governo da França, assim como fizeram com Angela Merkel ou Dilma Rousseff?

Também não chega a ser uma novidade. Os EUA espionam a França desde o tempo de Charles De Gaulle. Não é novo. O que é novo é a dimensão tecnológica dessa espionagem, é o fato de a NSA ter acesso aos telefones celulares de Merkel e Hollande, por exemplo. Surpreende que governos de países como França e Alemanha se deixem espionar de uma forma tão simples.

Por que isso acontece?

Dirigentes políticos e econômicos têm tendência de negligenciar as tecnologias de proteção de comunicações, pois esses aparatos são mais lentos, mais pesados, pouco funcionais. Aconteceu quando Nicolas Sarkozy chegou ao Palácio do Eliseu e não parava de usar seu BlackBerry para enviar mensagens de texto. Não duvido que tenha acontecido o mesmo com Hollande. Os serviços de inteligência franceses não são os piores do mundo, como você deve saber, e têm meios de se comunicar de formas protegidas e eficazes. É o caso do Ministério da Defesa, que se protege de forma muito eficaz.

Estudiosos dos serviços de inteligência alegam que a França também espiona e escuta líderes estrangeiros, da mesma forma que a NSA e os EUA.

Esse é um argumento que foi usado muito rapidamente para justificar o que se passou. Sim, não sejamos ingênuos. A França também tem serviços de inteligência que atuam em todo o mundo, mesmo que seus orçamentos sejam muito inferiores ao da NSA.

O que todos esperamos é que esses serviços não sejam usados para escutar de forma clandestina chefes de Estado de países amigos, como foi o caso entre EUA e França. Sempre se pode afirmar que todos fazem igual, mas isso é mera suposição. Aliás, não creio que todo mundo tenha a tecnologia para escutar o que se diz na Casa Branca. O que se pode afirmar hoje, com toda a certeza, é que só os americanos foram flagrados. Logo estamos diante de um fato concreto, não de uma suposição. / A.N.

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