EUA estão contra a ONU e contra a lei, diz professor

Para o sacerdote católico e professor de direito internacional Robert Drinan, da universidade de Georgetown, os Estados Unidos estão agindo, no caso de Iraque, contra a lei internacional e contra a Carta Magna das Nações Unidas. O jesuíta Drinan era reitor da Faculdade de Direito do Boston College nos anos 1960. Em 1970 foi eleito deputado federal pelo estado de Massachusetts numa campanha baseada na sua forte oposição à Guerra de Vietnã. Drinan é professor de direito na Georgetown desde 1981. Ele falou com o editor Tom Murphy, da Agência Estado, por telefone. AE: Há, em sua opinião, justificativa legal para a guerra contra o Iraque? Drinan: Eu concordo com o Papa João Paulo II e com os bispos americanos sobre não haver justificativa para esta guerra do ponto de vista do direito internacional e do ponto de vista da doutrina da Igreja Católica Romana a respeito do que constitui uma guerra justa. O Comitê de Direito Internacional das Nações Unidas acaba de endosar esta posição. O Iraque não invadiu os Estados Unidos. Nada nem parecida com uma invasão dos Estados Unidos pelo Iraque aconteceu. Você não pode invadir outro país sem autorização explícita do Conselho de Segurança da ONU. Os Estados Unidos não têm autorização. AE: Há justificativa moral para a guerra? Drinan: Temos de preservar a lei internacional. Se a França invadisse algum país, em circumstâncias parecidas, os Estados Unidos estariam gritando, dizendo que a ação é ilegal. Nós condenamos a invasão do Afeganistão pela União Soviética nos anos 80 e nós tomamos uma série de medidas para isolar Moscou naquela época. AE: E quanto ao argumento de que os Estados Unidos estariam agindo para defender os interesses da comunidade internacional? Drinan: O ódio aos Estados Unidos vai aumentar por causa da guerra. O que a comunidade internacional está nos mostrando? A chamada ?Coalizão dos Países Voluntários? é um grupo pequeno de nações sem importância. Ao mesmo tempo, nos afastamos os nossos tradicionais aliados europeus. AE: Há interesse, do ponto de vista do mundo árabe, de varrer Saddam Hussein do poder? Drinan: A invasão do Iraque já causa ressentimento. Sequer uma das 48 nações árabes apoia os Estados Unidos. A invasão vai agravar a tensão no Oriente Médio, e não aliviá-la. A guerra quase que certamente levará a um aumento dos atentados terroristas. Washington está violando o direito internacional. Os Estados Unidos enfraqueceram o princípio da declaração de guerra sob os auspícios da ONU. Individualmente, os países não podem declarar a guerra. AE: A guerra da Vietnã resultou num poderoso movimento pacifista encabeçado por membros do Congresso e, às vezes, milhares de manifestantes. Desta vez o movimento anti-guerra parece estar fragmentado sem uma liderança especifica. Por que a diferença? Drinan: O movimento anti-guerra está começando a se organizar. Na verdade, a atividade pacifista vista até agora é impressionante porque a oposição começou antes mesmo de a guerra estourar! O movimento anti-guerra hoje tem grande profundidade e forte embasamento moral. Além da Igreja Católica, praticamente todas as importantes organizações religiosas dos Estados Unidos são contra a guerra. O Conselho Nacional das Igrejas Americanas expressou forte oposição ao conflito.AE: E se a guerra contra o Iraque enfrentar dificuldades ou durar mais do que a maioria das pessoas espera?Drinan: Neste caso, eu acho que veremos o sentimento anti-guerra tomando as ruas.AE: E com relação a cenários pós-guerra para o Iraque? Os Estados Unidos podem ajudar os iraquianos numa era pós-Saddam?Drinan: É uma grande ilusão achar que o Iraque irá se democratizar da mesma forma que o Japão após a segunda guerra mundial. Nunca houve um regime democrático no Iraque. Por exemplo, os Estados Unidos não resolverão os problemas de milhões de curdos que se encontram na região. O ressentimento contra os Estados Unidos é muito grande.AE: O Presidente Bush está chamando esta guerra de um "ataque preventivo". Quais são os efeitos a longo prazo de usar tal argumento para justificar a guerra?Drinan: Este conceito é muito perigoso. Um ataque preventivo não é permitido no direito internacional. Você não pode evocar um conceito de "ataque preventivo" e dar um rótulo de motivo humanitário. Isto não é uma intervenção humanitária, mas sim uma tirania. O ataque está muito além de qualquer coisa sancionada pela lei internacional. E nem é autodefesa. O Iraque, além de não ser uma ameaça imediata, aparentemente não tem a intenção de invadir os Estados Unidos. Não há nem mesmo qualquer ligação provada entre o Iraque e o grupo terrorista Al-Qaeda. Supõe-se que tal ligação exista, mas isso nunca foi provado.AE: Por que, então, a administração do presidente Bush está adotando esta política?Drinan: A administração Bush, de certa forma, está tentando fazer com que o público americano não preste atenção ao estado perigoso em que a economia se encontra. O problema aqui, naturalmente, é o custo terrível do conflito. Esta guerra custará, no mínimo, $100 bilhões de dólares, o que aumentará ainda mais a dívida que deixaremos a nossos filhos e netos. A administração Bush parece rejeitar qualquer tipo de cooperação internacional. Rejeitou até o Tribunal Penal Internacional. Se opôs ao Conselho de Segurança e rejeitou o Tratado de Kyoto. Isto é uma nova onda de xenofobia. Já há aqueles na extrema direita americana pedindo à administração Bush que retire os Estados Unidos da ONU. O pedido parece ter um forte apelo ao atual governo. Veja o especial :

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