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EUA estão se tornando uma sociedade dividida

Confluência de crises produziu um surto de libertarismo; as pessoas estão insatisfeitas com Washington e o Tea Party protesta contra governo e a classe dirigente em geral

David Brooks, The New York Times, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2010 | 00h00

Os Estados Unidos estão se tornando uma sociedade fragmentada. O público despreza a classe política. A dívida pública está se acumulando num ritmo espantoso e incansável. Os salários da classe média estagnaram. O desemprego permanecerá alto. Serão necessários anos para uma recuperação plena da crise financeira. Essa confluência de crises produziu um surto de veemente libertarismo.

As pessoas estão insatisfeitas com Washington. O movimento Tea Party protesta contra governo grande, empresa grande e a classe dirigente em geral. Mesmo fora de suas fileiras, existe um cinismo corrosivo ante a atividade pública.

Mas há uma outra maneira de responder a esses problemas que é mais comunitária e menos libertária. Essa alternativa tem sido mais plenamente explorada pelo escritor britânico Phillip Blond.

Ele cresceu na Liverpool operária. "Eu vivi na cidade quando ela estava sendo eviscerada", disse ele a The New Statesman. "Era uma bela cidade, uma das poucas na Grã-Bretanha a ter uma cultura genuinamente indígena. E todo esse modo de vida foi destruído." A indústria morreu. O poder político foi centralizado em Londres.

Blond argumenta que, na última geração, testemunhamos duas revoluções, que libertaram o indivíduo e dizimaram associações locais.

Primeiro, houve uma revolução da esquerda: uma revolução cultural que desalojou modos e costumes tradicionais; uma revolução legal que enfatizou direitos individuais em vez de responsabilidades; uma revolução no bem-estar social em que trabalhadores assistenciais substituíram as sociedades de ajuda mútua e associações auto-organizadas.

Depois, houve a revolução do mercado de direita. Na era da desregulação, cadeias gigantes como Walmart dizimaram os lojistas locais. Os mercados financeiros globais assumiram o controle de pequenos bancos, de tal forma que o conhecimento local do banqueiro da cidade foi substituído por uma horda maníaca de traders a milhares de quilômetros de distância. Os sindicatos minguaram.

Centralização. As duas revoluções falavam a linguagem da liberdade individual, mas elas perversamente acabaram criando uma maior centralização. Elas criaram uma sociedade atomizada, segmentada, e depois o Estado teve de entrar e tentar reparar os danos.

A revolução do livre mercado não criou uma economia descentralizada pluralista. Criou uma monocultura financeira centralizada que requer um governo gigantesco para fiscalizar suas atividades. O esforço para libertar indivíduos das limitações sociais opressivas não produziu um florescimento da liberdade, ele enfraqueceu famílias, aumentou os nascimentos fora do casamento e transformou vizinhos em estranhos. Na Grã-Bretanha, temos um país com a criminalidade em ascensão e, por conseguinte, 4 milhões de câmeras de segurança.

Em um ensaio muito discutido na revista Prospect de fevereiro de 2009, Blond escreveu: "Vejam a sociedade em que nos tornamos: somos uma nação bipolar, um Estado burocrático, centralizado, que preside de maneira disfuncional uma cidadania crescentemente fragmentada, isolada e desprovida de poder." Num ensaio separado, ele acrescentou: "O Estado de bem-estar e o Estado de mercado são agora dois fracassos defuntos e mutuamente respaldados."

A tarefa hoje, ele argumentou numa palestra recente, é reviver o setor que as duas revoluções mutuamente dizimaram: "O projeto de conservadorismo transformador radical é nada menos que a restauração e criação da associação humana, e a elevação da sociedade e do povo que a forma a sua devida posição central e soberana."

Reforma. Economicamente, Blond expõe três grandes áreas de reforma: remoralizar o mercado, relocalizar a economia e recapitalizar os pobres. Isso significaria aprovar uma legislação de zoneamento para dar aos pequenos lojistas uma chance contra as gigantes de varejo, reduzir barreiras à entrada de novas empresas, revitalizar bancos locais, encorajar a divisão da propriedade com empregados, criar fundos de capital locais para que associações comunitárias possam investir em empresas locais, premiar poupanças, eliminar regulamentos que socializam o risco e privatizam o lucro, e reduzir os subsídios que fluem de governos grandes e empresas grandes.

Para criar um Estado civil, Blond reduziria o poder dos altos escalões do governo e ampliaria o arbítrio dos funcionários públicos da linha de frente, as pessoas que realmente trabalham nas vizinhanças. Ele descentralizaria o poder, dando mais autoridade orçamentária às menores unidades do governo. Ele canalizaria mais serviços por instituições de caridade. Ele aumentaria os investimentos em infraestrutura, para que mais lugares pudessem ser centros vibrantes de irradiação econômica.

Ele reconstruiria o "village college" (sistema de escolas britânicas para garotos de 11 a 16 anos com atividades de educação e lazer para adultos fora dos horários de aula) para que as universidades fossem mais conectadas às cidades que as cercam.

Basicamente, Blond tomaria uma cultura política que foi orientada em torno da escolha individual e a substituiria por uma orientada para relacionamentos e associações. Suas ideias causaram um grande furor na Grã-Bretanha no ano passado. Seu centro de estudos, ResPublica, é influente no Partido Conservador. Seu livro, Red Tory, vai sair em breve. Ele está fazendo uma curta viagem de palestras aos Estados Unidos, com presença no Tocqueville Forum em Georgetown na sexta-feira e na Universidade de Villanova amanhã.

A Grã-Bretanha sempre será mais hospitaleira a políticas comunitárias que os mais libertários Estados Unidos. Mas as pessoas são criaturas sociais aqui também. Este país também precisa de um vento político fresco. Os EUA também estão sofrendo uma devastadora crise de autoridade. A única maneira de restaurar a confiança é da comunidade local para cima.

É COMENTARISTA POLÍTICO E ESCRITOR

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