EUA estimam prazo de 6 meses para retomada plena de relações com Cuba

Americanos informam dissidência cubana sobre negociações em reunião secreta no dia do anúncio dos acordos, mas votação durante encontro mostra que maioria se sente traída por Obama por negociar com Castro secretamente

Rodrigo Cavalheiro - ENVIADO ESPECIAL / HAVANA, O Estado de S. Paulo

20 de dezembro de 2014 | 13h35

O restabelecimento completo das relações diplomáticas entre EUA e Cuba deve levar seis meses. O prazo foi dado pelo representante do governo americano enviado à ilha, o embaixador Jeffrey DeLaurentis, a 18 representantes da dissidência cubana em uma reunião secreta em Havana na quarta-feira à tarde, na sede da representação americana em Cuba. 

O encontro ocorreu duas horas depois de Barack Obama e Raúl Castro anunciarem a intenção de retomar os laços após 53 anos. A informação foi confirmada por três dos participantes da reunião. Na sexta-feira, a subsecretária americana para América Latina, Roberta Jacobson, afirmou que o primeiro encontro oficial deve ocorrer no fim de janeiro em Havana e tratará de direitos humanos e imigração. “Usaremos os diálogos migratórios como uma oportunidade para começar a falar de outras coisas que estão na agenda, dado o anúncio (de Obama)”, disse Roberta. 

“Quando falamos de como as pessoas são tratadas quando retornam a Cuba depois que tentaram deixar o país, isso é uma questão de direitos humanos.”

O Estado apurou que um dos efeitos imediatos do anúncio feito pelos presidentes foi um divisão profunda na dissidência cubana. Em uma votação durante a reunião, 12 líderes se mostraram contrários à negociação conduzida em segredo com mediação do Vaticano, 4 foram favoráveis e 2 não quiseram opinar até saber os detalhes do plano. “Entre os que criticaram, havia três níveis. Uns consideraram o trato inadequado, outros, um erro. E outros acharam que foi uma traição. Eu me incluo nos últimos”, disse à reportagem Guillermo Fariñas, que já fez mais de 20 greves de fome – a mais longa delas durou 135 dias, em 2010, pela libertação de 75 presos políticos detidos na chamada Primavera Negra, onda de repressão de 2003. Os últimos foram soltos em março de 2011.

Para Fariñas, morador de Santa Clara, no centro da ilha, Obama “traiu a oposição desarmada ao negociar com uma ditadura”. De acordo com ele, o presidente americano havia prometido em novembro de 2013 consultar os dissidentes caso houvesse negociação. “Do ponto de vista ético, Obama não agiu bem ao nos deixar fora do acordo”. Fariñas não considera que a libertação de 53 presos políticos, incluídos por Obama em sua lista de requisições, seja um sinal de abertura política. 

Entre os 75 dissidentes da Primavera Negra pelos quais Fariñas jejuou estava Héctor Maseda, que lidera uma corrente moderada conhecida como Liberal. Ele acredita que a negociação não trará benefícios à população cubana do ponto de vista da liberdade de expressão, mas a relação entre os dois países vai melhorar. “Quem conhece a maneira de governar dos Castros sabe que soltam alguns e logo prendem outros. O governo não nos disse nem mesmo quem são esses 53 presos. Ficamos sabendo do número pelo embaixador americano.” 

Há indícios de que todos sejam cubanos ou cubano-americanos. Alguns devem ir para os EUA quando forem soltos. Para Maseda, a troca de três espiões cubanos pelo americano Alan Gross é apenas a parte mais concreta do acordo. “Não há comparação entre a periculosidade dos espiões cubanos e Alan Gross, um prestador de serviços. Essa troca simples não faz sentido. É uma negociação muito mais ampla, em que os dois lados terão vantagens ao abrir mão de algumas coisas agora”, disse Maseda à reportagem. 

Um dos quatro votos favoráveis à negociação foi de Elizardo Sánchez, presidente da Comissão Cubana de Direitos Humanos e um dos mais antigos ativistas da ilha. “A dissidência é plural. Alguns realmente desaprovaram o acerto secreto. Mas isso não impede que atuemos em conjunto”, disse ao Estado. Segundo ele, hoje, há 100 presos por razões políticas na ilha. “Se soltarem 53, ainda faltarão cerca de 50”, pondera.

A integrante das Damas de Blanco (grupo de mulheres ligadas a dissidentes presos em Cuba) Estrella Aramburu espera que um dos 53 cuja libertação foi acertada seja seu filho Harold Delgado Aramburu, condenado a prisão perpétua por tentar escapar da ilha em uma lancha em 2003, numa ação que terminou com a morte de policiais. Ele e o primo Maikel estão presos desde então em Havana, onde vive Estrella, de 56 anos. “Domingo (amanhã) vou à missa com as fotos deles. Ninguém me falou que estão entre os que serão soltos, mas muita gente me liga perguntando o mesmo. Isso aumenta a expectativa.” 

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