EUA estudam liberar ativos do Irã em troca de concessões no setor nuclear

Os EUA estudam liberar parte do dinheiro iraniano congelado desde 1979 para convencer Teerã a dar passos reais no controle de seu programa nuclear. A iniciativa da Casa Branca foi vazada ontem pelo New York Times. Há dois dias, em Genebra, negociadores iranianos confirmaram ao 'Estado' que a opção por descongelar os ativos havia sido debatida nas reuniões entre as potências e o Irã.

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA , O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2013 | 02h03

No encontro, os iranianos apresentaram um projeto de acabar com o impasse nuclear no prazo de um ano. Em contrapartida, querem o fim das sanções que asfixiam sua economia. Os primeiros sinais de concessão do Ocidente, porém, podem vir de outra forma: devolvendo ao Irã parte do dinheiro retido.

A estimativa é de que quase US$ 50 bilhões estejam bloqueados em vários pontos do mundo. Nos EUA, os iranianos estimam que cerca de US$ 12 bilhões estejam congelados em bancos e fundos de investimentos, além de propriedades. Na Europa, o volume de ativos chegaria a US$ 35 bilhões.

Na perspectiva dos iranianos, se o presidente Barack Obama optar por esse caminho, a Europa também seguiria a mesma receita. Nos últimos anos, até mesmo os bancos da tradicionalmente neutra Suíça fecharam suas portas ao Irã e o país ficou isolado do sistema financeiro internacional.

A liberação do dinheiro seria uma forma de Obama driblar as resistências dentro do Congresso em relação a fazer um gesto em direção ao Irã. Nesta semana, enquanto negociadores debatiam um acordo em Genebra, senadores americanos saíam em defesa de sanções mais amplas contra o Irã.

O Departamento de Estado sabe que, se uma nova rodada de sanções for aprovada, o novo presidente, Hassan Rohani, não terá como convencer a ala mais radical do país a fazer concessões aos americanos.

Ao Estado, a delegação americana que viajou a Genebra confirmou que estava disposta a dar "passos proporcionais" às medidas do Irã de reduzir seu programa nuclear e dar garantias de que não busca uma bomba atômica.

Desde 2006, vários embargos foram impostos ao Irã em razão da falta de transparência de seu programa nuclear. Para Washington, o acúmulo de sanções custa à economia iraniana cerca de US$ 40 bilhões ao ano e teria sido por isso que Rohani aceitou negociar. Teerã nega que esse seja o motivo.

O Senado americano está prestes a votar uma nova rodada de medidas, mas a Casa Branca tentará convencer os senadores a adiar a iniciativa para pelo menos meados de novembro. Isso porque, no dia 7 de novembro, as potências e o Irã voltam a se reunir em Genebra. Wendy Sherman, negociadora americana, chegou a apontar que o encontro com os iranianos, nesta semana, foi a "conversa mais sincera já realizada entre os dois governos".

Cautela. Ao escutar de Teerã sua proposta de permitir inspeções surpresa e reduzir o número de centrífugas, a Casa Branca passou a estudar formas de premiar o Irã por passos que venha a dar.

A opção por usar o dinheiro congelado daria flexibilidade aos EUA. Se a Casa Branca sentir que as concessões não estão caminhando, o processo seria suspenso. "Seria como abrir e fechar uma torneira", disse uma fonte do governo americano ao New York Times.

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