EUA estudam retirada de Cuba da lista dos países que apoiam terrorismo

Reaproximação. A exclusão eliminaria obstáculos para o acesso de Havana ao sistema financeiro internacional e facilitaria a realização de investimentos americanos na ilha; a retirada também fortaleceria a posição de Obama na 7ª Cúpula das Américas

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2015 | 02h02

O governo dos Estados Unidos deve anunciar ainda nesta semana a retirada de Cuba da lista de países que patrocinam o terrorismo, um passo fundamental no processo de reaproximação entre os países após cinco décadas de isolamento. Assessores da Casa Branca afirmaram ontem que a revisão está em seus "estágios finais". Segundo reportagem da CNN, a decisão deverá ser oficializada hoje.

A exclusão de Cuba da relação fortaleceria a posição do presidente americano, Barack Obama, na 7.ª Cúpula das Américas, que começará na sexta-feira no Panamá e terá pela primeira vez participação do chefe de Estado cubano.

A recomendação para a exclusão de Cuba da lista de patrocinadores do terrorismo deve ser feita ao presidente pelo Departamento de Estado. Em seguida, o Executivo comunicará sua decisão ao Congresso, que terá 45 dias para analisá-la.

Obama deve enfrentar ataques do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, que pretende apresentar um abaixo-assinado com 10 milhões de adesões pedindo a revogação de sanções impostas pelos EUA a sete autoridades do país acusadas de violações de direitos humanos.

O decreto de Obama que impôs as medidas classificou a Venezuela como uma "ameaça" à segurança nacional e à política externa dos EUA. Assessores da Casa Branca afirmam que a linguagem é uma mera formalidade, mas ela tem sido usada pelo presidente venezuelano para obter apoio nas críticas a Washington. O líder cubano Raúl Castro é um dos principais aliados de Caracas e terá de navegar entre a lealdade a Maduro e a reaproximação com os EUA.

Cuba integra a relação desde 1982, ao lado de Irã, Sudão e Síria. A Coreia do Norte foi retirada da lista em 2008, por decisão do ex-presidente George W. Bush. A exclusão eliminaria obstáculos para o acesso de Cuba ao sistema financeiro internacional e facilitaria investimentos americanos na ilha.

Também aumentaria as chances de uma boa recepção ao presidente americano no Panamá. Por enquanto, não há confirmação de um encontro formal entre Obama e Raúl, mas assessores da Casa Branca disseram que a cúpula dará várias oportunidades para a "interação".

A intenção dos EUA de retirar Cuba da lista de países que patrocinam o terrorismo fez parte do anúncio de retomada de relações diplomáticas entre os dois países feito por Obama e Raúl em 17 de dezembro.

Desde janeiro, Washington e Havana negociam as condições para abertura de suas respectivas embaixadas, mas ainda há problemas a serem resolvidos, segundo o vice-conselheiro de Segurança Nacional de Obama, Ben Rhodes. Apesar de as dificuldades frustrarem a intenção dos EUA de concluir as discussões para o anúncio relativo às embaixadas antes da cúpula, o governo americano sustenta que as conversas ocorrem dentro dos prazos esperados.

Rhodes participou das negociações secretas para a reaproximação com Cuba - que duraram 18 meses. Na avaliação do governo americano, o reatamento com Havana vai eliminar um grande fator de tensão na relação entre os EUA e o restante da região. "Cada vez que aparecíamos na Cúpula das Américas, a discussão não estava relacionada a melhorar a governança ou a promover valores democráticos. A questão era por que Cuba não estava na Cúpula", disse Rhodes.

A principal fonte de atrito no Panamá será a Venezuela, que acusa os Estados Unidos de agressão em razão das sanções adotadas no fim de março. Ricardo Zuniga, diretor para o Hemisfério Ocidental do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, reconheceu que a linguagem usada no decreto presidencial criou certa "confusão" entre aliados americanos na região. "Os Estados Unidos não acreditam que a Venezuela represente uma ameaça a nossa segurança nacional. Nós apenas temos um padrão para formalizar esses decretos."

Roberta Jacobson, secretária assistente para o Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado, minimizou o fato de que o encontro do Panamá poderá terminar sem uma declaração dos presidentes, como já ocorreu nas duas cúpulas anteriores. Para ela, o mais importante são os acordos sobre questões específicas. Jacobson ressaltou que os EUA buscarão trabalhar sobre questões "pragmáticas" e não "ideológicas".

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