EUA evitam ascensão de general mexicano

Com ressalvas sobre militar cotado para Ministério da Defesa, Washington pressiona contra nomeação

GINGER THOMPSON , RANDAL C. ARCHIBOLD , ERIC SCHMITT , THE NEW YORK TIMES , WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2013 | 02h03

O governo do presidente americano, Barack Obama, interferiu para evitar a ascensão do general Moisés García Ochoa ao cargo de ministro da Defesa do México. A administração tinha várias ressalvas sobre o militar, entre elas a suspeita da DEA (a agência federal antidrogas americana) de que ele tinha vínculos com o narcotráfico e o desconforto do Pentágono com a possibilidade de ele ter feito mau uso de suprimentos militares e desviado dinheiro de contratos milionários de defesa.

Nos dias que precederam a posse de Enrique Peña Nieto, em 1.º de dezembro, o embaixador dos EUA no país, Anthony Wayne, reuniu-se com assessores diretos do presidente eleito para expressar sua preocupação com a possível promoção do general.

Esse encontro a portas fechadas oferece um raro vislumbre do profundo envolvimento do governo americano nos assuntos de segurança mexicanos - especialmente no momento em que Washington avalia Peña Nieto, que está apenas no segundo mês de um mandato de seis anos. O papel americano na escolha do gabinete mexicano também salienta as tensões e desconfianças entre os governos, apesar das proclamações públicas de cooperação e amizade.

Peña Nieto, de 46 anos, prometeu mudar a maneira de combater o crime organizado no México, com um foco maior na redução da violência do que na prisão dos chefões da droga. Mas até agora ele só ofereceu detalhes vagos de seus planos de segurança, concentrando-se mais em programas sociais e econômicos.

A eleição de Peña Nieto trouxe o Partido Revolucionário Institucional (PRI) de volta ao poder e analistas de política externa especializados no México dizem que não está claro para onde vai o novo governo.

Dúvidas. García Ochoa, de 61 anos, cujos antecedentes são a um só tempo exemplares e enigmáticos, personifica o dilema. No papel, ele é um oficial modelo. Conquistou duas graduações avançadas nas mais prestigiadas academias militares do México e fundou o Centro Nacional de Inteligência sobre Narcóticos, uma organização de elite. Ele foi aluno e instrutor em programas americanos de treinamento militar. Escreveu três livros, incluindo um sobre o papel dos militares no combate às drogas.

Pessoas que conhecem o general disseram ter ficado chocadas com suas avaliações francas da luta contra o crime organizado. Ele falou abertamente sobre corrupção governamental, um tópico que era considerado tabu.

Em pelo menos duas ocasiões no último ano e meio, segundo os amigos do general, ele viajou secretamente a San Antonio para se reunir com agentes de inteligência americanos e deu nomes de autoridades militares e civis que, segundo suspeitava, estavam dando proteção a narcotraficantes.

Na época, García Ochoa estava na parte de baixo da lista de possíveis ministros da Defesa. E pessoas que o conhecem disseram que ele contava com o apoio americano para dar-lhe uma vantagem sobre outros candidatos. O que ele não sabia era que os EUA estavam discretamente advogando contra ele.

Autoridades americanas montaram um portfólio problemático de alegações contra o general. Em seu papel de diretor de administração e aquisições militares, ele havia sido acusado de desviar dinheiro e suprimentos de grandes contratos de defesa.

Reportagens na mídia mexicana em meados do ano passado acusaram o general de aprovar pagamentos de mais de US$ 355 milhões por equipamentos sofisticados de vigilância, sem reportar esses pagamentos a autoridades civis ou dar uma explicação de como os equipamentos seriam usados.

Por trás do pano, autoridades americanas apelidaram o general de "Senhor 10%" - com base nas suspeitas sobre o modo como ele tratou esses contratos. E duas autoridades americanas lembraram do general fazendo um pedido formal de ajuda dos EUA para a unidade de helicópteros das Forças Armadas e depois recuar do arranjo quando os americanos pediram para ver os dados, registros financeiros, de voo e combustível da unidade.

A DEA suspeitava que o general mantinha laços antigos com traficantes. Os agentes não quiseram discutir a natureza específica desses laços. Tampouco disseram se sua investigação contra o general prosseguia. García Ochoa não quis atender aos pedidos de entrevista.

O New York Times obteve relatórios de inteligência sigilosos da DEA dos primeiros anos da carreira do general, quando ele fundou o centro de inteligência para o combate ao narcotráfico. Os relatórios, datados de 15 de dezembro de 1997, indicam que o então tenente-coronel García Ochoa foi uma das várias autoridades militares mexicanas envolvidas em tentativas de negociar um acordo com as organizações de tráfico de drogas mais poderosas do país. "É provável que militares queiram tirar proveito de uma relação com traficantes" , diz o relatório.

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