EUA evitam comentar posição do Brasil sobre a guerra

O departamento de Estado evitou comentar diretamente a declaração emitida pelo Itamaraty sobre o Iraque, na quarta-feira, na qual o governo brasileiro reiterou seu apoio "a todos os esforços pacíficos" nas Nações Unidas "com vistas ao pleno cumprimento pelo Iraque da resolução 1.441 do Conselho de Segurança, em particular para garantir a eliminação de todas as armas de destruição de massa e de armas proscritas", mas também manifestou simpatia aos "objetivos" da declaração comum feita pela Rússia, França e Alemanha sobre o Iraque, favorável a uma continuação das inspeções e contrária a uma solução de força. "Nós cremos que a proposta francesa parte da falsa premissa de que cabe à ONU revelar as armas que os Iraque está escondendo por meio de um esforço maciço de busca", disse um diplomata ao Estado. "Sob a resolução 1441 do Conselho de Segurança, não é tarefa dos inspetores da ONU compelir os iraquianos a cumprir com seus termos, mas simplesmente verificar se estão cumprindo". De acordo com o diplomata, "o Iraque está em violação material da resolução e a proposta francesa, além provocar divisão, manda a mensagem errada a Bagdá". Fora do governo, a reação à declaração brasileira variou entre a perplexidade e a reprovação. Alguns estranharam a decisão do governo Lula de manifestar-se sem dizer nada de particularmente relevante num debate no qual o Brasil não tem voz, voto ou outra forma de influência, e só tem a perder com pronunciamentos públicos que sugiram simpatia por um dos lados de uma briga que pode redefinir as relações internacionais. Arturo Valenzuela, cientista político da Universidade de Georgetown que foi assessor senior do Conselho de Segurança da Casa Branca para a América Latina no governo Clinton, acredita que a reação interna na administração Bush será negativa. "Se a declaração brasileira tivesse restringido ao primeiro parágrafo e reiterado apoio a um processo conduzido na ONU, acho que não causaria insfatisfação em Washington", disse Valenzuela. " Mas ao enfatizar que o Brasil apóia as posições da Rússia, da França e da Alemanha, essa declaração provavelmente irritará profundamente os formuladores da política dos EUA, que estão buscando apoio incondicional para uma ação no Oriente Médio". Outros levarantaram dúvidas sobre a oportunidade e o sentido prático da ambigua declarção. "Pergunto-me por que o Itamaraty não esperou pela divulgação do relatório (de armars Hans) Blix, na sexta-feira", disse o ex-secretário de Estado adjunto para a América Latina, Alexander Watson, diretor gerente da empresa de consultoria internacional Hills & Company. "Se a interpreto corretamente, a declaração diz que o Brasil deseja o pleno cumprimento da resolução 1441, especialmente a eliminação de todas as armas de destruição de massas e das armas proscritas, apóia o uso de meios pacíficos para alcançar esses resultado e concorda com os objetivos, mas não necessariamente os detalhes, da proposta da França, da Rússia e da Alemanha", acrescentou. "Mas a declaração não trata das questões difíceis, que são: o que fazer se os esforços pacíficos não resultarem no pleno cumprimento da resolução 1441 pelo Iraque, e como e quando decidir que esses esforços fracassaram, tendo em mente que o que está em jogo aqui não é apenas o desarmamento do Iraque, mas a eficácia e a credibilidade do Conselho de Segurança das Nações Unidas".

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