EUA fazem acusações veladas à França na questão iraquiana

Nas declarações públicas, o secretário de Estado Colin Powell e outros altos funcionários americanos têm-se esforçado para apresentar o racha entre os Estados Unidos e a França, a respeito de uma nova resolução do Conselho de Segurança (CS) autorizando uma ação militar para desarmar o Iraque, como "diferença de opiniões" entre velhos amigos. Os cuidados diplomáticos não têm pautado, porém, as azedas negociações de bastidores em curso na sede das Nações Unidas e nas capitais dos países membros do CS.De acordo com versões que circulam nos meios políticos e diplomáticos em Washington, nos últimos dias a administração Bush comunicou ao governo do presidente Jacques Chirac que possui provas de que Paris violou a proibição do fornecimento de armas ao regime de Saddam Hussein, vigente desde 1991, por decisão do CS, e as apresentará publicamente depois que suas tropas entrarem no Iraque, para deixar clara a razão que estaria por trás da decisão da França de não apoiar uma resolução que dê legitimidade internacional a um ataque punitivo contra o Iraque.De acordo com a mesma versão, o governo francês repeliu a ameaça velada e indicou a Washington que está pronto para enfrentar as conseqüências de sua recusa em avalizar uma ação militar que considera desnecessária e desaprova.No final da semana passada, parte desse duríssimo diálogo veio à tona em declarações atribuídas por alguns jornais americanos a fontes dos serviços de inteligência dos EUA. De acordo com esses funcionários, o Iraque teria adquirido peças de reposição para os seus caças Mirage e os helicópteros Gazelle, comprados da França antes da guerra do Golfo, através de empresas intermediárias sediadas em Dubai e outros pontos do Oriente Médio. Funcionários da administração insinuaram que o fornecimento desses materiais seria a razão pela qual Paris se opõe a uma ação militar americana contra o Iraque. Mas os mesmos funcionários ressalvaram que as informações em seu poder não comprovam que as vendas de peças de reposição tenham sido autorizadas pelo governo francês.Em Washington, a porta-voz da embaixada francesa, Nathalie Loiseau, disse ao Washington Post que seu governo não tem informações sobre contrabando de materiais e equipamentos franceses para o Iraque. "Cumprimos plenamente as sanções da ONU e não há nenhuma venda de qualquer tipo de material bélico ou armamento ao Iraque", disse ela.A exemplo dos EUA, a França apoiou o Iraque na guerra que o país travou contra o Irã, no início dos anos 80. Depois da Guerra do Golfo, uma década mais tarde, a Alcatel francesa reconstruiu o sistema telefônico iraquiano. Outras companhias francesas receberam cerca de 20% dos contratos do programa "petróleo por comida", que a ONU instituiu numa frustrada tentativa de evitar que as sanções penalizassem o povo iraquiano mais do que a ditadura de Saddam.Segundo fontes americanas, empresas alemãs, russas e chinesas também teriam violado o regime de sanções e fornecido materiais proibidos ao regime de Bagdá. A Rússia é credora de US$ 8 bilhões do Iraque. A França tem entre US$ 4 bilhões e US$ 5 bilhões a receber. Pelos cálculos americanos, o temor dos governos de Moscou e de Paris, que estaria por trás de sua oposição a um ataque, é que ambos serão postos no último lugar da fila de credores, na hipótese de os EUA ocuparem o Iraque e assumirem a administração do país e de seus poços de petróleo por um período que, segundo Washington, não será inferior a dois anos.

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