EUA fazem investigação criminal sobre colapso da Enron

Pouco mais de doze horas depois de o departamento de Justiça anunciar a criação de uma pouco usual força-tarefa integrada por vários departamentos do governo para conduzir uma investigação criminal sobre a bancarrota da Enron, o secretário da Justiça, John Aschcroft, eximiu-se nesta quinta-feira de qualquer participação no inquérito. A Casa Branca, por sua vez, revelou que o presidente do conselho de administração da companhia, Kenneth L. Lay, amigo pessoal e um dos principais financiadores da carreira política do presidente George W. Bush, telefonou para os secretários do Tesouro e do Comércio para avisá-los da gravidade da situação, quando a empresa já fazia água. Lay fez uma contribuição de US$ 25 mil para um ?Conselho de Liderança? criado por Ashcroft quando ele era senador de Missouri. Ex-líder mundial do mercado de gás natural e principal operadora do setor elétrico nos EUA, a Enron chocou o mercado no dia 16 de outubro passado ao revelar um prejuízo de mais de US$ 600 milhões no terceiro trimestre de 2001 em ?parcerias? que não constavam da contabilidade oficial da empresa. Um tentativa de fusão da empresa com uma concorrente fracassou no fim de novembro. Com suas ações - que chegaram a valer mais de US$ 80 - subitamente reduzidas a centavos, a companhia texana pediu concordata no dia 2 de dezembro e entrou para a história como a maior caso de bancarrota da história dos EUA e do capitalismo. ?O que todo mundo vai descobrir é que esta administração investigará plenamente questões como a concordata da Enron para ter certeza de que podemos aprender com o passado e de que os trabalhadores são protegidos?, Bush disse nesta quinta-feira, numa declaração claramente calculada, como parte dos esforços da administração para controlar os danos políticos. Além da força-tarefa formada pelos ministérios da Justiça, Trabalho e da Securities and Exchange Commission, a CVM americana, Bush ordenou um inquérito adicional sobre a operação dos fundos de pensão da Enron. A maioria dos 20 mil empregados da companhia perdeu tudo que tinha em seus fundos de pensão privada, pois este eram formados por ações da própria Enron. Além das investigações do Executivo, o Congresso iniciou quatro inquéritos separados sobre o colapso da empresa. Paralelamente, dezenas de credores iniciaram processos judiciais contra a empresa. De acordo com uma porta-voz, o secretário do Tesouro, Paul O?Neill, atendeu chamadas de Lay nos dias 28 de outubro e 8 de novembro. Na mesma época, Lay procurou o secretário do Comércio, Don Evans, para avisá-lo de que a Enron não estava em condições de honrar vários pagamentos. O anúncio da formação da força-tarefa para investigar a Enron veio depois que o Washington Post revelou, no início da semana, que altos executivos da companhias haviam tido meia dúzia de encontros com o vice-presidente Dick Cheney. Segundo várias publicações americanas, o acesso e influência política da Enron na administração ficaram claros no início do ano durante reuniões de empresários do setor com uma força-tarefa encarregada de propor uma nova política energética para os EUA. Cheney presidiu o grupo. Jeff Skillings, o mais alto executivo do lado operacional da Enron, que renunciou algumas semanas antes da quebra, disse nesta quinta-feira por meio de uma porta-voz, que não sabia que a empresa estava à beira da bancarrota. Segundo fontes ligadas à empresa, Skillings já esteve ou ainda estaria veraneando na praia da Joatinga, no Rio de Janeiro. Ele é apontado como o autor da estratégia de diversificação das atividades da companhia e da criação de ?parcerias? extra-balancete conduzidas pelo altos executivos. A investigação federal também abrangerá a Arthur Andersen, que fazia a auditoria da contabilidade da Enron e não detectou nenhuma irregularidade em suas operações. Dirigentes da Arthur Andersen já ouvidos pelo Congresso alegaram ignorar as operações clandestinas da empresa e admitiram que elas podem ter violado a lei. No período de operação das parcerias, os altos executivos da Enron embolsaram mais de US$ 1 bilhão. Nos últimos dias, dezenas de executivos e ex-executivos começaram a receber intimações para prestar depoimento. A força-tarefa criada pela administração para investigar a Enron é pouco usual, porque esse tipo de mecanismo é normalmente acionado apenas para inquéritos sobre um setor industrial e não apenas uma empresa. A Divisão de Fraude do Departamento da Justiça vai liderar o inquérito do Executivo, que deve levar meses para ser concluído.

Agencia Estado,

10 Janeiro 2002 | 20h09

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.