EUA foram irresponsáveis no Haiti, diz escritor

A saída "prematura" dos Estados Unidos do Haiti ? logo depois da invasão, em 1994 ? pode ter colaborado para a crise atual no país, na opinião do especialista em história haitiana Madison Smartt Bell. "Foi irresponsável os EUA deixarem o país de forma tão prematura, antes que a polícia fosse suficientemente treinada, armada e organizada para manter ordem", disse Bell em entrevista à BBC Brasil.Bell, autor dos livros All Soul´s Rising e Master of the Crossroads, prepara-se para lançar neste ano seu terceiro sobre a história do Haiti, que desde o ano passado vem tendo dias consecutivos de protestos e violência. Mas nem todos acreditam que é possível comparar o Haiti de hoje com o Haiti que as tropas dos Estados Unidos deixaram em 1995.Situação diferente "A situação agora é bastante diferente. Aristide perdeu o amplo apoio que tinha há oito ou dez anos, e a oposição ? pela primeira vez desde que ele retornou ao poder ? está armada", afirma Ernest Preeg, embaixador americano no país nos anos 80."(...) É simplesmente uma situação muito perigosa e potencialmente explosiva." A operação americana na nação do Caribe, em 1994, teve como objetivo restituir a ordem e reconduzir ao poder Jean-Bertrand Aristide, que havia sido afastado em um golpe de Estado em 1991.De volta à Presidência em 94, Aristide foi reeleito em 2000, em eleições que foram consideradas fraudulentas pela oposição. As forças americanas saíram em 1995, sendo substituídas por soldados da ONU.Os rebeldes, que controlam cerca de dez cidades, exigem a saída do presidente, a quem também acusam de corrupção e de desrespeito dos direitos humanos.Segundo Bell, a crise atual poderia ter sido evitada. "O que aconteceu nas eleições de 2000 foi tão pequeno, poderia ter sido facilmente resolvido ou ter nunca sido um problema", disse."Mas a crise hoje é muito mais grave, eu acho, (porque) quando as forças especiais da Polícia entram em Gonaives e não são capazes de controlar a situação ali, eu acho que isso realmente mostra que os Estados Unidos foram irresponsáveis em retirar seus militares quando fizeram. Porque isso dá uma indicação assustadora de que não há uma única força que pode manter ordem no país."Incerteza Ernest Preeg acredita que há dois cenários possíveis para o Haiti nas próximas semanas. "Vai ser ou uma repressão por parte de Aristide e de seus bandidos pessoais (...), (em que ele irá) recuperar controle total, ou a oposição vai continuar a se espalhar e (espalhar) seu controle por todo o país."O embaixador acredita que a oposição tem uma "base ampla" no momento e "talvez até (o apoio da) maioria em importantes vilas e cidades, particularmente Gonaives."Além disso, ele acha que o governo Bush tem a tendência de ficar do lado dos grupos de oposição no país ? apesar de as autoridades do país estarem pregando uma saída constitucional para a crise."A administração Bush tem sido muito crítica de Aristide (...) nos últimos três anos e tem uma maior inclinação para ver na oposição grupos civis e democráticos, e dar a eles apoio." Somália Nesta segunda-feira, o primeiro-ministro haitiano, Yvon Neptune, disse que a oposição tem a intenção de levar à frente um golpe de Estado no país.Madison Smartt Bell acha que isso seria muito ruim para o país. "O governo foi legalmente eleito, e se ele fosse derrubado num golpe de Estado, seria uma coisa terrível na história do Haiti, neste momento. Já houve mudanças de governo demais por meio da violência no país".Ele critica a oposição haitiana pela aparente falta de clareza em suas posições. "A oposição é um saco de gatos. É além da minha compreensão o que constitui a oposição no Haiti neste momento", disse.Ainda assim, o escritor acredita que a oposição não pode ser subestimada, e que a solução para o país, neste momento, passa pelo diálogo entre os rebeldes e o presidente Aristide."Se eles não forem capazes, rapidamente, de alcançar um compromisso no qual eles dialoguem, (...) pode ocorrer muito bem um estado de guerra civil comparável ao da Somália... comparável aos dez anos de anarquia e disputa pelo poder que ocorreram há 200 anos (no país).""Eu acho que eles não têm que reviver aquilo de novo. Eles já passaram por isso, Agora, 200 anos depois, eles podem deixar isso para trás e nos mostrar o caminho."

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