EUA, Grã-Bretanha e França indicam que preparam operação contra Assad

Chanceleres de Paris e Londres dizem que usariam força sem anuência da ONU; para secretário de Estado americano, ditador tem de pagar

Andrei Netto e Cláudia Trevisam, Correspondente - O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2013 | 02h11

PARIS/WASHINGTON - EUA, Grã-Bretanha e França deram ontem sinais de que preparam uma intervenção na Síria. O chanceler britânico, William Hague, e o francês, Laurent Fabius, disseram que mesmo sem autorização da ONU usariam a força para punir o suposto uso de armas químicas pelo regime. Em tom duro, o secretário de Estado americano, John Kerry, disse que faria Bashar Assad pagar pelo que chamou de "obscenidade moral".

Segundo Kerry, é "inegável" que o governo de Damasco foi o responsável pela ação que provocou a morte de mais de mil pessoas em Ghouta, nas imediações da capital síria. "Nosso sentido de humanidade é ofendido não apenas por esse crime covarde, mas pela cínica tentativa de encobri-lo", disse Kerry, que apareceu diante da imprensa no início da tarde de ontem para fazer um pronunciamento específico sobre a Síria.

Analistas em Washington esperam que a resposta militar seja forte o bastante para afetar o regime de Assad e limitar sua capacidade de utilizar armas químicas no futuro, mas não extensa a ponto de provocar o envolvimento dos americanos na guerra civil do país.

O mais provável é que os EUA ataquem alvos específicos com mísseis lançados de navios de guerra estacionados no Mediterrâneo ou de aviões fora do espaço aéreo sírio. "A questão não é se os EUA vão responder, mas como vão responder", disse o presidente do Council on Foreign Relations, Richard Haass.

Em sua opinião, o que está em jogo não é só a punição da Síria pelo suposto uso de armas químicas, mas a própria credibilidade da política externa americana. "Quando os Estados Unidos dizem que há uma linha vermelha e alguém a ultrapassada, é necessário demonstrar que essa decisão tem um custo", ponderou, em conferência telefônica com jornalistas.

Larry Korb, do Center for American Progress, disse que o provável ataque militar terá um caráter limitado e não mudará o curso da guerra civil. "Será uma mensagem ao regime de Assad, que não pode ficar sem uma resposta", disse ao Estado.

Segundo o chanceler britânico, a resposta da comunidade internacional pode ser tomada "fora do quadro" do Conselho de Segurança. Em entrevista à rádio BBC, o ministro afirmou que os métodos diplomáticos fracassaram até aqui e as Nações Unidas não assumiram suas responsabilidades.

O conselho é formado por 15 membros, mas apenas cinco são permanentes e têm direito à veto: Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Rússia e China. Desde o início da guerra, em março de 2011, todas as resoluções mais incisivas contra o regime de Assad foram vetadas pelo governo russo.

Hague reiterou que uma intervenção pode ocorrer mesmo sem a unidade completa do Conselho de Segurança da ONU", com base em uma grande urgência humanitária". "O que quer que façamos será feito em acordo com o direito internacional", garantiu. O ministro ressaltou que a decisão não foi tomada, mas revelou um consenso entre as potências ocidentais. "Nós, os Estados Unidos e muitos outros países, incluindo a França, estamos certos de que não podemos permitir a ideia de que no Século 21 armas químicas sejam usadas impunemente."

Também ontem, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, interrompeu suas férias e retornou a Londres para coordenar reuniões sobre a Síria. Por telefone, o chefe de governo falou com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, para quem deixou claro que "há poucas dúvidas" de que o regime de Assad tenha sido o responsável pelo ataque aos rebeldes. De acordo com o porta-voz de Downing Street, Putin afirmou "não haver evidências de um ataque com armas químicas ou de quem seja o responsável".

Em Paris, Laurent Fabius também deu indícios de que Grã-Bretanha e França estão afinando o discurso para a intervenção. Questionado pela rádio Europe 1 se uma operação militar acontecerá, o ministro repetiu as palavras de Hague, garantindo que "a decisão ainda não foi tomada". "É preciso dimensionar reações, medi-las, agir ao mesmo tempo com determinação e sangue-frio. É isso que será decidido ao longo dos próximos dias. As opções estão abertas. A única que não considero é a de não fazer nada."

Tanto o governo britânico quanto o francês demonstraram insatisfação quanto à autorização concedida por Assad para que os inspetores de armas químicas da ONU ingressem na região do ataque. Para Fabius, trata-se de uma "presença tardia". "Toda uma série de sinais podem desaparecer", explicou. "De outra parte, os inspetores não têm a missão de verificar quem está na origem do ataque, e isso é preocupante."

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