EUA hesitam sobre como agir na Síria

Washington estabeleceu como 'linha vermelha' o uso de armas químicas por parte de Assad, mas reluta em envolver-se de forma efetiva

DENISE CHRISPIM MARIN , CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2013 | 02h02

Ao afirmar que a Síria havia cruzado a "linha vermelha", o presidente dos EUA, Barack Obama, deu sinais de que seu governo vai agir, mesmo ao custo de se envolver em um novo conflito. O grau de envolvimento ainda não está claro. Mas recentes gestos de Washington, como a busca mais efetiva do apoio da Rússia a uma zona de exclusão aérea, indicam que os EUA decidiram agora mudar o jogo.

Colaboradores de Obama chegaram a justificar que o presidente falou de improviso no dia 4. Cautelosos, completaram que sua declaração não está vinculada a nenhuma ação predeterminada. Naquele dia, o presidente americano dissera que o regime de Bashar Assad havia cruzado a linha vermelha ao ter usado armas químicas contra o povo sírio e acrescentara ser esse fato suficiente para uma "mudança de cálculo" pela Casa Branca.

As Nações Unidas alegaram haver suspeitas de uso de gás tóxico pelos rebeldes. Os governos britânico e turco insistem que o autor desses ataques foi o governo de Assad. Os EUA continuam sem as provas efetivas e críveis sobre a responsabilidade do regime sírio para mostrar ao mundo sem o risco de repetir o vexame de 2003, quando apresentou evidências forjadas de presença de armas químicas no Iraque à ONU.

Apesar da cautela dos assessores de Obama, uma nova tática foi adotada pela Casa Branca, independentemente da confirmação sobre quem usou as armas químicas. Nos primeiros dias deste mês, vazou para a imprensa a intenção dos EUA de fornecer armas letais aos rebeldes sírios. Nesta semana, o secretário de Estado, John Kerry, conseguiu atrair a Rússia para uma conferência internacional, a ser realizada em junho, sobre uma solução para o conflito sírio.

O governo russo está ciente de que a criação de uma zona de exclusão aérea na Síria, autorizada pelo Conselho de Segurança da ONU, será uma das hipóteses mais sustentadas. A Rússia tem se oposto a essa solução militar, como a que se deu na Líbia, e provê o regime de Assad com armas e munições. Kerry insistiu também para que o governo russo não venda a Damasco mísseis de alta performance, os S-300.

Michael O'Hanlon, especialista do Brookings Institution, afirmou em um artigo que Obama se mostra preocupado em traçar uma estratégia de saída do conflito da Síria antes de envolver os EUA nele. Os modelos do Iraque, Afeganistão e mesmo da Líbia não serviriam para o caso sírio, em sua opinião. O da Bósnia-Herzegovina seria mais adequado. Assim como na antiga Iugoslávia, há grupos inimigos dentro da rebelião síria, entre os quais figuram extremistas da Al-Qaeda.

A Casa Branca considera os riscos de a transição política na Síria, depois da renúncia de Assad, causar guerras entre os diversos grupos étnicos e religiosos - alauitas, sunitas, curdos, cristãos. Igualmente teme a formação de um futuro governo por uma maioria islâmica radical, fato que ameaçaria a estabilidade da região e, sobretudo, a segurança de Israel. Um terceiro risco avaliado é o de sucesso ou fracasso de uma possível zona de exclusão aérea. Trata-se da opção alardeada pela oposição republicana, em Washington, especialmente pelo senador John McCain, um dos que condenam a política de governo Obama para a Síria.

No Pentágono, essa ideia é vista com reticências porque a Síria não é a Líbia, onde as bases aéreas estavam localizadas em áreas pouco habitadas. Anthony Cordesman, especialista do Center for Strategic and International Studies (CSIS), chamou a atenção, em artigo, para o sucesso de Israel em seu recente bombardeio a comboios de mísseis na Síria. Esse ataque "fácil" não indica ausência de poderio militar para Damasco revidar com força novos bombardeios. "Não sabemos se a Síria tentou seriamente parar o ataque da Força Aérea israelense", afirmou.

Os riscos para os EUA e os aliados com a criação da zona de exclusão aérea, para Cordesman, claramente são menores agora do que há dois anos, quando o conflito começou. Certamente, as forças de Damasco estariam vulneráveis diante do poderio militar americano, mas "os EUA teriam de lançar maciços ataques aéreos e com mísseis de cruzeiro" para suprimí-las rapidamente. Isso exigiria bases dos EUA na Turquia, Jordânia e o uso das instalações na Arábia Saudita e no Catar.

As despesas não seriam modestas para um país que já se vê mergulhado em um ajuste severo nas contas públicas, especialmente nos gastos do Pentágono, e com uma população resistente à ideia de embarcar em novos conflitos. Embora Obama tenha enfaticamente declarado que tropas americanas não desembarcarão na Síria, é muito provável que elas sejam requisitas pela ONU para o período de transição. O'Hanlon estima em 20 mil, o mesmo número de soldados americanos enviados para a Bosnia-Hezergovina, o total de convocados.

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