EUA inverteram escolha certa

Eleger Hillary em 2008 e deixar Obama para 2016 teria resultado em governos melhores

TIMOTHY, GARTON ASH, ESPECIAL, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2014 | 02h02

O que houve com o messias? Aquele por quem os americanos dançaram nas ruas entoando "sim, nós podemos" naquela memorável noite da eleição há meros seis anos? Aquele cujo nome esteve em cada boca europeia. Aquele que prometeu que a humanidade olharia para trás e lembraria deste momento como aquele "quando a subida dos oceanos começou a desacelerar e nosso planeta começou a se curar"?

Agora que nos aproximamos das eleições de meio de mandato para o Congresso, no dia 4, seis anos depois da eleição de Barack Obama, candidatos democratas não querem ser vistos com ele.

Elizabeth Drew, a veterana observadora da política americana, escreveu que "provavelmente nunca, desde Richard Nixon, tantos candidatos evitaram aparecer ao lado do presidente de seu partido quando ele comparece a seus Estados". Seu índice de aprovação caiu para perto de 40%. Na Europa, quase já não se fala dele.

O que deu errado? Durante um verão nos Estados Unidos, pedi a observadores simpáticos a Obama para fazerem um balanço do governo. Obviamente, muita coisa ainda pode ocorrer nos mais de dois anos que lhe restam, mas ele, provavelmente, já fez a maioria das coisas importantes e ele, agora grisalho, isolado, cansativamente professoral, parece cada vez mais alguém que preferiria estar em um campo de golfe.

É importante lembrar que nenhum presidente, desde 1945, recebeu uma tarefa tão difícil. Ele assumiu a presidência enfrentando a pior crise financeira desde os anos 1930, o legado da guerra desnecessária e desastrosa de George W. Bush no Iraque, um sistema político disfuncional que rosna em torno de um Congresso partidarista, polarizado e dominado pelo dinheiro, e uma mudança milenar no equilíbrio global de poder. Este ano verá a China superar os EUA como a maior economia mundial pelo critério da paridade do poder de compra. Numa coluna que escrevi de Washington, na manhã depois que Obama foi eleito, já expressava minhas dúvidas se aquele espírito de esperança seria suficiente.

Preconceito. Um obstáculo específico foi subestimado. Apesar da chegada de um presidente negro na Casa Branca ser saudada como a superação final da maior mancha na maior democracia do mundo, ocorre que persiste muito preconceito. "É inegável", comenta sobriamente Drew, "que a raça do presidente tem uma parte significativa na maneira destrutiva como se fala dele ou se faz oposição a ele."

Dito isso, qual é o balanço provisório? Minha resposta é a seguinte: moderadamente bom em política interna, muito fraco em política externa. A economia americana está se saindo melhor do que qualquer outra desenvolvida. Ela cresceu quase 8% desde o primeiro trimestre de 2008, enquanto a economia da zona do euro ainda está mais de 2% abaixo disso no mesmo período. O desemprego caiu para menos de 6%.

Podemos discutir sobre quem merece o crédito por isso - o governo, Ben Bernanke, o gás de xisto, o dinamismo de um enorme mercado doméstico, o espírito empreendedor do povo americano ou Deus -, mas ocorreu durante o mandato de Obama. As restrições ao setor financeiro são tímidas e incompletas, mas sua Agência de Proteção Financeira do Consumidor oferece uma proteção nova e significativa aos que estão do lado errado da escrivaninha do banqueiro. Ele fez o que pôde para começar a reduzir as emissões de carbono, apesar de um Congresso dominado por lobbies.

O lançamento inicial do site do Obamacare foi um desastre gerencial, pelo qual ele arca com a responsabilidade, mas o programa como um todo trouxe aproximadamente 10 milhões de pessoas para uma assistência à saúde segurada ou ao Medicaid pela primeira vez.

Dois acadêmicos de Princeton revelam que em seu primeiro mandato, Obama orçou bem mais para programas antipobreza do que outros presidentes democratas. Ele falou menos dos pobres, mas fez mais por eles. Ele (ainda) não fez uma reforma abrangente da imigração, mas isso, em grande parte, porque políticos republicanos estão colocando suas próprias indicações em primárias influenciadas pelo Tea Party.

É um currículo doméstico respeitável para tempos difíceis. Em política externa, ao contrário, o presidente de quem o mundo esperava tanto, fez muito pouco. Sim, ele "não fez uma besteira" como invadir o Iraque. No entanto, está prestes a fazer.

Oportunidade. O estadista visionário do discurso no Cairo, em 2009, não conseguiu aproveitar a oportunidade da Primavera Árabe, especialmente no Egito, onde bem mais de US$ 1 bilhão de ajuda dava aos americanos uma real influência nos militares repressores do Egito de novo no poder. Ele impôs uma "linha vermelha" ao uso de armas químicas na Síria, e depois deixou o presidente Bashar Assad cruzá-la. Assad continuou concentrando seu fogo sobre a oposição síria moderada, que Hillary Clinton havia pedido para Obama apoiar mais vigorosamente.

Isso permitiu que o Estado Islâmico ganhasse uma base de ação mais sólida. Por outro lado, sua fraqueza no trato com o primeiro-ministro iraquiano xiita, Nuri al-Maliki, resultou em que alguns sunitas descontentes também passassem a apoiar os extremistas. Agora, os americanos estão de novo militarmente envolvidos no Iraque.

O vencedor prematuro do Prêmio Nobel da Paz (ainda) não fez tudo que pode para conseguir uma solução de dois Estados para Israel e palestinos, como fez Bill Clinton. Ele tem sido fraco em reagir à agressão descarada de Vladimir Putin na Ucrânia. Numa aparição recente, ele disse que a Rússia era apenas uma potência regional. O escândalo da vigilância eletrônica em massa pela NSA alienou aliados, em especial os alemães, e ele nem sequer demitiu seu chefe de inteligência.

O plano "pivô para a Ásia" é uma boa ideia, mas nem a China nem aliados dos EUA na região ficaram impressionados com os resultados. O homem que chegou ao poder mais como Sr. Norte-Sul do que Sr. Leste-Oeste fez um pouco mais pelo desenvolvimento do Sul global do que George W. Bush. Ah, e ele não fechou Guantánamo.

Preciso continuar? Tudo isso sugere uma pergunta interessante: será que os eleitores americanos em primárias presidenciais democratas puseram seus "primeiros" históricos na ordem errada? Primeiro negro antes da primeira mulher.

Embora nem Hillary nem Obama tivessem exercido um importante cargo executivo, Hillary tinha mais experiência e, provavelmente, teria sido mais dura na maioria dos aspectos. Ela estava na idade certa na época, enquanto terá 60 se vencer em 2016. Com oito anos mais, com mais algum tempo no Senado, seguido de um período como secretário de Estado ou vice-presidente, Obama estaria mais bem equipado para enfrentar os desafios de um mundo perigoso. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É PROFESSOR DE ESTUDOS EUROPEUS NA UNIVERSIDADE DE OXFORD

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