EUA investem em defesa cibernética

Governo de Obama prevê investimento de US$ 355 milhões para tornar redes públicas e privadas mais seguras

Renata Miranda, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2009 | 00h00

Depois de autorizar o envio de mais de 17 mil soldados para o Afeganistão e anunciar a retirada de todas as tropas de combate americanas do Iraque até agosto do ano que vem, o presidente dos EUA, Barack Obama, resolveu atacar em outro front: a internet. Preocupado em tornar mais seguras as redes públicas e privadas do país, Obama incluiu na proposta de orçamento para 2010 um financiamento de US$ 355 milhões para a manutenção do setor - essencial para a economia e para a defesa dos EUA.Especialistas vêm alertando há anos contra um "Pearl Harbor eletrônico", um "11 de Setembro digital" ou um "Cibergedom". "A decisão do presidente de injetar mais dinheiro para a segurança na internet é importante porque um ataque às redes americanas poderia causar danos semelhantes aos de armas de destruição em massa", disse ao Estado, por telefone, Ravi Sandhu, diretor do Instituto para a Segurança Cibernética da Universidade do Texas, em San Antonio. Um ataque de grandes proporções poderia fazer com que informações detalhadas sobre planos militares vazassem para as mãos de grupos ou Estados inimigos, debilitando as estratégias do Exército, além de poder causar o bloqueio de dados bancários e interferir na bolsa de valores. Sistemas de transporte e de saúde também poderiam entrar em colapso ao serem violados em um ataque.Expressões como ciberguerra e ciberataque já causam calafrios aos serviços de inteligência de vários países. Governos ocidentais, EUA à frente, estão convencidos de que seus inimigos nesse novo campo de batalha estão no Leste, como estavam na Guerra Fria - mais especificamente, Rússia e China. Um relatório apresentado ao Congresso americano no fim do ano passado concluiu que a China está expandindo "agressivamente" sua capacidade de guerra virtual e em breve poderá possuir uma "vantagem assimétrica". Segundo o relatório, "essas vantagens reduziriam a superioridade dos EUA em guerras convencionais".Em junho de 2007, os EUA acusaram a China de ter invadido redes de computadores dos Departamentos de Estado, Comércio e Defesa, roubando arquivos. Aos chineses também foram atribuídas invasões eletrônicas de agências governamentais da França, Alemanha, Coreia do Sul, Taiwan, além de empresas britânicas - entre elas, a Rolls-Royce. O ataque cibernético mais devastador que se tem notícia contra um país também ocorreu em 2007 e atingiu a Estônia. Bancos, agências governamentais e até o site do governo ficaram desconectados por vários dias. Autoridades locais suspeitaram que o ataque veio da vizinha Rússia, porque a Estônia estava enredada em sérias disputas diplomáticas com Moscou na época. Rússia e China argumentam que esses ataques foram realizados por hackers, e não pelo governo. Israel, Índia, Paquistão e EUA também foram acusados de promover ataques como esses.EFEITOS COLATERAISFuncionários do governo dos EUA e de empresas privadas estão cada vez mais preocupados com os efeitos colaterais que um ataque em grande escala contra as redes de computadores pode causar.Em 2007, um relatório do Departamento de Segurança Interna indicou que os sistemas do Pentágono haviam sofrido pelo menos 80 mil tentativas de ataque naquele ano. Uma simulação feita por Washington em dezembro também mostrou que os EUA não estão preparados para se defender de um grande ataque virtual."A ameaça contra redes federais de tecnologia da informação é real, séria e crescente", afirmou o governo no relatório da proposta orçamentária.Além dos US$ 355 milhões destinados ao Departamento de Segurança Interna, Washington afirmou que destinaria "fundos substanciais" para a proteger as redes no Programa Nacional de Inteligência. Parte do financiamento irá para a Agência de Segurança Nacional - órgão responsável por operações de espionagem eletrônica. No fim do mês passado, o diretor de Inteligência Nacional, almirante Dennis Blair, disse ao Congresso que a agência assumirá "um papel maior" na área de proteção na internet."A infraestrutura do país é um alvo óbvio para esses ataques", disse Randy Grubb, diretor do Instituto de Pesquisa para a Segurança Cibernética da Universidade Armstrong Atlantic, no Estado da Geórgia. "A exploração de setores específicos por algum inimigo poderia dar informações privilegiadas referentes ao Exército e à economia dos EUA."Para o pesquisador Alexander Melikishvili, do Centro James Martin para Estudos da Não-Proliferação, na Califórnia, os resultados de um ataque cibernético dependem da integração das estruturas críticas do país à internet. "Quanto mais uma nação estiver integrada tecnologicamente, mais destruidor pode ser um ataque desses", afirmou o analista. "Hackers poderiam obter dados delicados do governo referentes a tecnologias avançadas e programas de defesa futuros."De acordo com especialistas da área, os ataques contra as redes de informação podem ser perpetrados por um infinito número de grupos que vão desde jovens hackers até grupos terroristas e Estados inimigos. "Em ataques como esses, porém, é mais importante como a invasão é feita do que quem a realizou", afirmou Grubb. "Uma única pessoa pode causar mais danos do que um grupo equipado com as tecnologias mais avançadas disponíveis no mercado."

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