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EUA investigam falsificação de dados sobre o EI

Boletins de inteligência teriam sido alterados para valorizar campanha militar americana

Matt Apuzzo e Michael Schmidt, The New York Times, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2015 | 07h29

Quando as forças do Estado Islâmico tomaram diversas cidades iraquianas no ano passado, os analistas do Comando Central dos Estados Unidos (Centcom) enviaram avaliações sigilosas aos funcionários de alto escalão da inteligência militar e aos estrategistas do governo nas quais atribuíram a humilhante retirada do Exército iraquiano a uma simples “reorganização”.

Essas mudanças são o motivo central da ampliação da investigação que o Pentágono está empreendendo no Centcom. Analistas militares afirmam que os supervisores modificaram as conclusões a fim de mascarar alguns fracassos das forças americanas no treinamento das tropas iraquianas e na contenção do EI.

Segundo esses analistas, os supervisores estavam particularmente ansiosos por pintar um quadro do papel dos EUA no conflito mais otimista do que se justificava.

Os ataques em Paris, ocorridos na semana passada, foram uma demonstração definitiva de que o Estado Islâmico, até então um grupo de militantes concentrado na tomada de territórios no Iraque e na Síria, ampliara seu foco e passara a atacar o Ocidente. Os arquivos eletrônicos requisitados pela investigação do Pentágono contam a história da ascensão do grupo, vista pelos olhos do Centcom, que supervisiona as operações militares em todo o Oriente Médio.

O exato teor desses documentos não está claro – e é provável que não seja divulgado por se tratar, em grande parte, de material sigiloso. Entretanto, autoridades militares informaram o Congresso de que alguns desses e-mails e documentos podem ter sido deletados antes de ser entregues aos investigadores, segundo um funcionário de alto escalão do Congresso, que não quis ser identificado.

Risco. A insurreição no interior do Centcom é um capítulo importante da história da reação dos EUA à crescente ameaça do EI. Nos últimos meses, um grupo de analistas do Centcom levou ao inspetor-geral suas preocupações a respeito dos seus superiores, afirmando ter provas de que funcionários de alto escalão modificaram as avaliações da inteligência para fazer parecer extremamente positiva a campanha de ataques aéreos americanos contra o EI.

Segundo os analistas, os problemas no Iraque são uma decorrência das profundas divisões políticas e religiosas que não poderão ser solucionadas tão facilmente com uma campanha militar. Entretanto, a posição oficial do Centcom continuou, em geral, otimista.

Não está claro se as avaliações do Centcom modificaram significativamente a posição do governo de Barack Obama sobre o EI. Enquanto o Centcom se mostrasse em grande parte positivo em relação às conquistas americanas, outras agências foram mais pessimistas. Em geral, a Casa Branca tem sido comedida em suas avaliações.

No entanto, o presidente Obama e os funcionários de alto escalão da inteligência admitiram que o rápido surgimento do EI os apanhou de surpresa. Pelo menos, a perspectiva de que funcionários de alto escalão tenham distorcido propositalmente as conclusões da inteligência suscitou indagações sobre até que ponto Obama, o Congresso e a sociedade poderão acreditar nas avaliações dos militares.

Estratégia. Essas indagações adquiriram uma nova urgência desde os ataques terroristas de Paris. Agora, aumenta a pressão sobre a Casa Branca para que articule uma estratégia mais enérgica com a finalidade de desmantelar o grupo, enquanto um coro de parlamentares e pré-candidatos presidenciais republicanos pede uma campanha terrestre dos EUA na Síria.

Parlamentares deram início às próprias investigações no aparato da inteligência militar. O deputado Mac Thornberry, republicano do Texas, presidente do Comissão dos Serviços Armados da Câmara, disse em uma entrevista que examina as avaliações da inteligência do Centcom e de outros comandos militares para saber se existe um problema sistêmico de vozes discordantes que estão sendo abafadas por comandantes militares de alto escalão.

“Sempre que há uma acusação de que as informações estão sendo modificadas de determinada maneira – ou distorcidas de determinada maneira –, há uma grande preocupação”, afirmou.

O coronel Patrick Ryder, porta-voz do Centcom, disse que o comando aprovou a supervisão do inspetor-geral, e responderá à solicitação de informações apresentada pelo Congresso. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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