EUA já não têm de patrulhar cada fronteira

Reduções no orçamento da Defesa obrigarão os EUA a repensar como usar seu poder militar e a cortar gastos do jeito certo

Joseph S. Nye Jr., do The New York Times, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2011 | 00h00

O recente acordo da dívida cortará o orçamento da Defesa ao longo da próxima década. E se o Congresso não conseguir chegar a um acordo sobre um corte adicional de US$ 1,5 trilhão, o "mecanismo gatilho" da lei provocará reduções mais profundas nos gastos militares. Os cortes iniciais não colocarão em risco a segurança nacional americana, mas os cortes mais profundos poderão fazê-lo.

O governo de George W. Bush quase dobrou o orçamento da Defesa depois dos atentados de 11 de setembro de 2001. Com o arrefecimento das duas guerras de Bush, os EUA poderiam reduzir as forças terrestres a níveis dos anos 90, diminuir as compras programadas de Joint Strike Fighters F-35, fazer maior uso de drones (aviões não tripulados) mais baratos e de outras tecnologias e lidar com a escalada de custos do sistema de saúde da defesa - sem graves danos à segurança nacional. Aliás, o orçamento do presidente Barack Obama já havia planejado poupar US$ 400 bilhões em defesa até 2023.

Não basta remendar o orçamento da Defesa. Os EUA precisam também repensar como usar seu poder militar. Diferentemente do estado de coisas durante a Guerra Fria, os EUA e seus aliados respondem hoje por mais de 70% dos gastos militares do mundo. A maior potência já não precisa patrulhar cada fronteira e tentar policiar cada país. Os adversários dos cortes na Defesa estão levantando o espectro do isolacionismo e do enfraquecimento do poder americano. Mas existe um meio termo.

No auge da Guerra Fria, o presidente Dwight D. Eisenhower decidiu contra a intervenção militar direta ao lado dos franceses no Vietnã, em 1954, porque estava convencido de que era mais importante preservar o vigor da economia americana.

Hoje, uma estratégia assim evitaria o envolvimento de forças terrestres em guerras importantes na Ásia ou em outros países pobres. Embora vá levar tempo para os EUA se livrarem da estratégia pós-11/9 de Bush, é preciso começar, como declara a Estratégia de Segurança Nacional de 2010, "reconhecendo que nossa força e influência externa começam com os passos que damos em casa".

Eisenhower poderia ter dito isso - e ninguém poderia acusar o então presidente de ser um isolacionista.

Contrainsurgência. A contrainsurgência é atraente como tática militar, mas não deveria levar os EUA a uma estratégia de construção nacional em lugares onde não há a capacidade de mudar o engenheiro. A máxima de evitar grandes guerras terrestres em países pobres não significa retirar nossa presença militar de lugares como Japão e Coreia do Sul, ou encerrar a assistência militar a países como Paquistão e Egito. Alguns analistas chamam isso de "equilíbrio offshore", mas esse termo precisa significar mais que apenas a atividade das forças aérea e naval.

Por exemplo, no Japão e na Coreia do Sul, os aliados dos EUA pagam uma parte substancial do custo de acantonar forças americanas ali porque querem uma apólice de seguro numa região às voltas com uma China em ascensão e uma Coreia do Norte volátil.

Presença. Ao longo deste século, a Ásia retornará a sua condição histórica, com mais da metade da população mundial e metade da produção econômica mundial. Os EUA precisam estar presentes lá.

Mercados e poder econômico repousam em estruturas políticas, e um poder militar americano oferece essa estrutura. A segurança militar está para a ordem como o oxigênio está para a respiração: despercebida até se tornar escassa. É por isso que a nova comissão bipartidária do Congresso precisa oferecer as receitas que permitam que os EUA continuem jogando esse papel vital enquanto evitam a armadilha de uma construção de país excessivamente ambiciosa.

Uma estratégia dessas é também sustentável em casa. O historiador britânico Niall Ferguson, um entusiasta do império, lamentou na época da guerra do Iraque que os EUA tivessem perdido a capacidade imperial por causa de três déficits domésticos: pessoal (número insuficiente no terreno); atenção (apoio público insuficiente para uma ocupação prolongada); e financeiro (poupança insuficiente e taxação insuficiente em relação aos gastos públicos). Ele estava certo.

A falta de estômago para uma ocupação imperial ou colonial é uma das maneiras importantes em que a cultura política americana difere da Grã-Bretanha imperial. Os americanos gostam de promover valores universais. Mas em vez de sucumbir à tentação de intervir do lado "dos bons", os EUA podem fazer melhor sendo o que Ronald Reagan chamou de "uma cidade cintilante no alto de uma montanha".

As alternativas que os EUA enfrentam hoje não são um orçamento de Defesa intocável ou o isolacionismo. Uma estratégia inteligente para preservar o poder e o papel global dos EUA dependerá de adaptar sabiamente a política externa americana para caber nas roupas que o país tem. Eisenhower bem sabia disso. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É PROFESSOR DA UNIVERSIDADE HARVARD

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