EUA já têm ciência de ameaça

Telegramas do governo americano divulgados pelo site WikiLeaks revelam que há pelo menos três anos a diplomacia dos EUA já temia o uso do narcotráfico na África como fonte de financimento de grupos terroristas. No final de 2009 Washington foi alertado diretamente pelo governo do Mali que o pior dos cenários havia se confirmado.

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2010 | 00h00

Os documentos revelam como aeroportos na África passaram a ser controlados por cartéis sul-americanos, governo corruptos protegem a passagem da droga em escala industrial e países se transformaram em sucursais do tráfico.

Segundo os telegramas, a agência antidrogas dos EUA, a DEA, considera a região como a nova base do contrabando no planeta. Os documentos confirmam a avaliação obtida pelo Estado de que a luta para desmantelar as principais rotas do tráfico de drogas da América do Sul empurrou cartéis para a montagem de novas alianças, desta vez com Estados semi-falidos na África.

Sem nenhuma ordem institucional e arrasados por conflitos nos últimos anos, esses países passaram a ser literalmente controlados por grupos internacionais que usam a região e fecham acordos com líderes ou grupos terroristas locais para garantir que o produto entre nos mercados mais ricos do mundo.

O governo americano não hesita em mostrar preocupação em seus telegramas, temendo que parte de um comércio avaliado em US$ 1,3 bilhão acabe nas mãos dos terroristas.

Segundo um telegrama de 2008, uma reunião em Londres entre uma diplomata britânica, Janet Douglas, e o vice-secretário de Estado adjunto dos EUA para a África, Phillip Carter, deixa claro o risco de a droga sul-americana estar financiando o terrorismo.

"É importante controlar esse comércio de droga antes que desestabilize a região e ainda que terroristas comecem a usar isso como fonte de financiamento", disse Janet.

Em outro telegrama de dezembro de 2009, o presidente do Mali, Amandou Touré, deixou claro que essa operação já era realizada e "ligou diretamente os recursos da droga ao terrorismo". A declaração foi feita ao general William Ward, chefe do comando militar americano na África.

O que também preocupa é que toda uma região já começaria a ser alvo desse esquema. Segundo um telegrama da embaixada americana em Serra Leoa, de abril de 2009, a Guiné-Bissau "já caiu sob o controle de organizações criminosas oportunistas e sofisticadas" e seria "o primeiro narcoestado emergente na África".

"As unidades de segurança pública foram contaminadas pelo narcotráfico", informa um telegrama de 2007.

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