EUA jogam conta do ajuste nas outras economias, diz Dilma em Seul

Presidente eleita está na capital sul-coreana para acompanhar Lula em reunião do G20 que começa nesta quinta.

Rogério Wassermann, BBC

11 de novembro de 2010 | 05h21

Dilma Rousseff acompanha o presidente Lula na cúpula do G20

A presidente eleita do Brasil, Dilma Rousseff, criticou nesta quinta-feira em Seul, na Coreia do Sul, a política monetária dos Estados Unidos, afirmando que a decisão do Fed (o Banco Central americano) de injetar US$ 600 bilhões na economia local é uma "desvalorização disfarçada" do dólar.

Dilma está na capital sul-coreana para acompanhar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na reunião de cúpula do G20 (o grupo das 20 principais economias do mundo), a partir desta quinta-feira.

"Há uma política que é grave para o mundo inteiro, que é a política do dólar fraco. Até o (Alan) Greenspan (ex-diretor do Fed) falou sobre isso hoje", afirmou Dilma após dar um passeio por Seul antes da chegada de Lula.

"Essa é uma questão que sempre causou problema, porque a política do dólar fraco faz com que o ajuste americano fique na conta das outras economias", disse.

Cesta de moedas

Questionada sobre a declaração dada na véspera pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, sobre a substituição do dólar por uma cesta de moedas como referência para transações internacionais, Dilma afirmou que "essa é uma das posições, há várias na mesa".

"Acho que vai ser uma questão de negociação. A melhor solução seria não haver desvalorização do dólar", afirmou.

Para ela, a adoção da cesta de moedas como referência "não é só uma questão de vontade". "Se fosse só vontade já teria sido feito", afirmou.

"Pode ser também uma questão de acordo, como foi em Bretton Woods (a reunião que definiu as bases do sistema financeiro internacional no pós-guerra). Lá isso já tinha sido colocado como possibilidade, pela representação inglesa, liderada por (John Maynard) Keynes. Ele defendia a cesta de moedas", disse a presidente eleita.

Real

Dilma afirmou ainda que "não é bom" o fato de o real ser uma das moedas mais valorizadas do mundo.

"Não acho isso bom. Vamos ter de olhar cuidadosamente e tomar todas as medidas possíveis. Isso não é bom para o Brasil", afirmou a presidente eleita.

Ela não quis comentar, porém, quais seriam as medidas a serem tomadas para evitar a valorização excessiva da moeda brasileira.

"Se eu tivesse medidas (para anunciar), não viria aqui (no lobby do hotel em Seul, onde falou aos jornalistas brasileiros)", afirmou.

Citando o ex-premiê britânico Winston Churchill, Dilma afirmou que "há certas medidas que a gente não confessa nem para nós mesmos".

'Atração' do G20

Dilma deve acompanhar a agenda de Lula durante a cúpula, mas não terá participação ativa na reunião, reservada apenas aos chefes de Estado ou Governo em exercício.

"O G20 é um um fórum oficial entre os países, então a representação do Brasil é do presidente Lula", disse a presidente eleita.

Ela negou o rótulo de "atração" da reunião após a revista americana Forbes tê-la indicado como a 16ª pessoa mais influente do mundo.

"Atração é presidente no exercício do cargo, presidente eleita não é atração, é só notícia", disse.

Dilma, que viajou a Seul em um avião de carreira, acompanhada do ministro Guido Mantega, disse que não conversou com ele sobre sua possível permanência ou sua saída do cargo no próximo governo durante o voo.

"Não teria sentido tratar disso no avião", afirmou.

"Vou tratar disso quando tratar da questão de todo o ministério, e ainda estou tratando. Na hora que for anunciar, vou anunciar direitinho, não vou especular", afirmou.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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