EUA lamentam retomada nuclear na Coréia do Norte

Numa escalada em seu conflito com os Estados Unidos, a Coréia do Norte anunciou hoje que iria reativar imediatamente uma usina nuclear que foi o centro de uma crise na península coreana em 1994. Os Estados Unidos consideraram o anúncio lamentável, e a Coréia do Sul pediu a seu vizinho para reverter a decisão. Com um duro inverno pela frente, um porta-voz do Ministério do Exterior da Coréia do Norte disse que seu país iria reativar o velho reator nuclear, fabricado pelos soviéticos, e retomar a construção de outras instalações nucleares, a fim de suprir graves carências de energia. A agência de notícias estatal norte-coreana, KCNA, divulgou as declarações do porta-voz, mas não o identificou. Uma autoridade do governo sul-coreano, que pediu para não ser identificada, disse que levará dois meses para a Coréia do Norte reativar sua antiga usina nuclear. Oficiais dos EUA acreditam que ela era usada para o desenvolvimento de armas nucleares. O anúncio da Coréia do Norte seguiu-se à apreensão e posterior liberação, nesta semana, de um navio carregando mísseis Scud norte-coreanos para o Iêmen. Entre outros compradores de mísseis norte-coreanos estão a Líbia, Irã, Síria, Paquistão e Egito. O programa nuclear da Coréia do Norte foi suspenso por um acordo de 1994 com Washington, evitando uma possível guerra na península coreana. Especialistas avaliam que a Coréia do Norte pode extrair rapidamente uma quantidade suficiente de plutônio de suas antigas usinas para fazer várias bombas nucleares. A Coréia do Norte muitas vezes usou ameaças de confrontação como meio de ganhar vantagens em futuras negociações, apesar de não ter ficado imediatamente claro se seu último anúncio faz parte de tal estratégia. "Se você ler com cuidado a declaração da Coréia do Norte, sua posição de querer uma solução pacífica para a disputa sobre as entregas de petróleo por parte dos EUA continua inalterada", afirmou o primeiro-ministro japonês, Junichiro Koizumi. A isolada Coréia do Norte, que depende de ajuda do exterior para alimentar seu povo, tem tentado um processo de reconciliação com a Coréia do Sul, assim como laços diplomáticos com outros países. Mas ela tem repetidamente entrado em atrito com a administração do presidente americano, George W. Bush. O porta-voz da Coréia do Norte alegou que seu país foi forçado a retomar o programa devido à decisão dos EUA, no mês passado, de suspender a entrega anual de 500 mil toneladas de petróleo a Pyongyang. A suspensão do carregamento - uma parte vital do acordo de 1994 - visava pressionar a Coréia do Norte a desistir de um programa nuclear mais recente, baseado no enriquecimento de urânio. O Japão, a Coréia do Sul e a União Européia também são signatários do acordo de 1994, e apoiaram a decisão americana de suspender a entrega de petróleo, mas a Coréia do Norte tem concentrado sua irritação nos Estados Unidos. A Casa Branca considerou a decisão lamentável e afirmou querer resolver o problema pacificamente. "O anúncio bate na cara do consenso internacional de que o regime da Coréia do Norte tem de cumprir todos seus compromissos, em particular o desmantelamento de seu programa de armas nucleares", afirmou o porta-voz da Casa Branca, Ari Fleischer. Os Ministérios do Exterior da Alemanha e da Rússia emitiram um comunicado conjunto dizendo que os dois países estão preocupados com a decisão norte-coreana. Eles exortaram a Coréia do Norte a respeitar suas obrigações. Os EUA entendem que o programa baseado no urânio viola uma cláusula de controle de armas nucleares no pacto de 1994. O porta-voz norte-coreano justificou que "a situação prevalecente forçou o governo (norte-coreano) a suspender suas medidas de congelamento nuclear... e retomar imediatamente a operação e construção de suas instalações nucleares para gerar eletricidade". E acrescentou: "Nosso país enfrenta um imediato problema na geração de eletricidade, porque os Estados Unidos virtualmente abandonaram suas obrigações." O porta-voz adiantou que "nossa posição de princípio é que a crise nuclear na península coreana deve ser resolvida pacificamente. Depende totalmente dos Estados Unidos se iremos congelar nossas instalações nucleares novamente". O governo do presidente sul-coreano, Kim Dae-jung, que tem buscado a reconciliação com a Coréia do Norte, exortou Pyongyang a respeitar os acordos internacionais de não proliferação nuclear. "O governo expressa profundo desgosto e preocupação que o comunicado... da Coréia do Norte possa criar tensão na península coreana", disse Seok Dong-yun, porta-voz do Ministério do Exterior sul-coreano. O secretário de Defesa dos EUA, Donald H. Rumsfeld, acredita que a Coréia do Norte já tenha uma ou duas bombas atômicas. O país comunista também é um grande vendedor de mísseis e tecnologia de mísseis. O porta-voz do Ministério do Exterior chinês, Liu Jianchao, disse que o governo em Pequim continua comprometido com uma península coreana sem qualquer ameaça nuclear, mas adiantou que a China também permanece comprometida com a ajuda a seu vizinho. "A China tem assistido a Coréia do Norte em suas dificuldades. E continuará a fazê-lo", afirmou. Pelo pacto de 1994, a Coréia do Norte concordou em congelar seu programa de plutônio em troca de dois mordernos reatores de água leve, a serem construídos por um consórcio liderado pelos EUA, e de 500 mil tonelads anuais de petróleo, até que os reatores estivessem prontos. Pyongyang reclama que a construção dos reatores está anos atrasada em relação ao planejamento inicial.

Agencia Estado,

12 Dezembro 2002 | 16h58

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