EUA mantêm apoio a governo israelense

Sob pressão dos acontecimentos para assumir um papel mais ativo em busca da retomada do processo de paz entre palestinos e israelenses, o governo Bush deu hoje um passo para trás e deixou patente a timidez de sua diplomacia diante do conflito no Oriente Médio. Num gesto certamente mal recebido pelos países árabes e pelos aliados dos Estados Unidos na Europa, o secretário de Estado, Colin Powell, em lugar de exortar israelenses e palestinos a cessar as hostilidades, praticamente endossou a decisão do primeiro-ministro Ariel Sharon de isolar o presidente da Autoridade Palestina, Yasser Arafat, e de investir militarmente contra seu QG em Ramallah, em represália aos recentes atentados suicidas contra a população civil de Israel. Powell atribuiu a Arafat, a responsabilidade pelo insucesso dos incipientes esforços de paz que a administração vinha fazendo, após meses de omissão, e conclamou o líder palestino a "agir" com o objetivo de cessar as operações suicidas que mataram mais de 20 israelenses ao longo da semana. No momento em que Powell falava, em Washington, Arafat estava escondido num porão do complexo que abriga a sede da AP nos territórios ocupados da Cisjordânia, enquanto tanques e escavadeiras do Exército israelense demoliam as instalações. "Os israelenses disseram-me que não é sua intenção ocupar nenhuma dessas áreas", disse Powell, referindo-se ao assalto contra o quartel-general de Arafat. "Eles entraram (em Ramallah) em busca de terroristas, para recolher armas e não é sua intenção ocupar essas áreas a longo prazo." O secretário de Estado revelou ter sido informado sobre a operação pelo próprio Sharon, antes de ela ser desencadeada. Ele não tentou dissuadir o primeiro-ministro. "É uma situação muito difícil (...) Israel está tentando se defender (...) Pedimos aos israelenses para mostrar o necessário comedimento de forma que não ponham a vida do presidente Arafat em perigo e minimizem a perda de vida civis", afirmou Powell. "Pedimos ao primeiro-ministro Sharon e a seu governo que considerem cuidadosamente as conseqüências de suas ações", continuou. "O presidente Arafat é o líder do povo palestino e sua liderança é, agora, ainda mais central para se tentar encontrar a saída para essa situação trágica." Powell falou aos jornalistas após uma teleconferência do Conselho de Segurança da Casa Branca, da qual o presidente George W. Bush, que passa os feriados de Páscoa em seu racho no Texas, participou por videoconferência. Num tom defensivo, ele procurou responder às críticas crescentes à passividade que o governo republicano adotou em relação ao conflito no Oriente Médio, listando os esforços recentes da administração para alcançar a suspensão das hostilidades. Mas mostrou, ao mesmo tempo, como a guerra que os EUA travam contra o terrorismo desde 11 de setembro condiciona hoje a política externa do país, ao analisar as causas do agravamento do conflito nos últimos dias. "Mais uma vez, terroristas levaram ao retrocesso da visão do povo palestino de um Estado que viveria lado a lado e em paz com Israel", disse Powell, referindo-se ao atentado suicida assumido pelo grupo palestino Hamas, esta semana, na cidade de Netanya, que matou 19 israelenses e feriu dezenas. Powell disse que o enviado especial dos EUA, Anthony Zinni, que iniciou sua segunda missão há dez dias, permanecerá na região. Não que se espere, em Washington, que o ex-general operará um milagre. "Eles têm de deixar Zinni lá, pois o mundo inteiro gritaria se os EUA o mandassem voltar", disse Judith Kipper, diretora de estudos do Oriente Médio do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington. "Mas isso não significa que manterão Zinni na região, porque é muito difícil entender como essa administração calcula o que está em jogo." Fontes européias indicaram que o próprio Zinni estaria frustrado com a atitude de Washington, depois de ter tido uma proposta de cessar-fogo rejeitada pela Casa Branca, porque continha uma referência à retomada das negociações de paz, como queriam os palestinos, em lugar de ater-se apenas à condição de Israel para cessar as hostilidades, ou seja, a suspensão dos ataques terroristas contra a população civil do país. Um diplomata árabe, que falou à agência Reuters com a condição de não ser identificado, disse que o erro da administração Bush foi tratar o conflito como um caso de polícia. "Eles estão tentando conter a violência, mas a situação já está além disso." O diplomata disse duvidar que o governo mudará de posição e passará a focalizar os aspectos políticos do conflito, pois, para fazê-lo, teria de pagar um alto preço político em casa, algo pouco provável num ano eleitoral. Com a impotência da diplomacia de Bush no Oriente Médio ilustrada pelas duas decisões da Cúpula da Liga Árabe, em Beirute, esta semana - a aprovação de um plano de paz da Arábia Saudita, que Washington endossa apenas na parte que beneficia Israel, e a declaração de apoio ao Iraque, adotada como resposta ao plano do presidente americano de ampliar a guerra contra o terrorismo ao regime de Bagdá -, simpatizantes e críticos do governo disparam críticas. Na quinta-feira, o colunista conservador George Will chamou atenção para a "incoerência" da política norte-americana na região. Lawrence Korb, do Conselho de Relações Internacionais, condenou a omissão de Bush no Oriente Médio. "Não há dúvidas de que os EUA deveriam estar envolvidos (na região) desde o início da atual administração", disse Korb. Para ele, Zinni não conseguirá nenhum resultado e nada de significativo acontecerá enquanto Powell continuar à margem, tentando resolver a crise por telefone. O secretário de Estado fez apenas uma visita à região nos 14 meses do atual governo, em junho do ano passado. A exemplo de outros analistas, Korb acredita que a razão pela qual Bush evitou e continuará a evitar um envolvimento maior é porque teme repetir o fracasso das tentativas de paz no Oriente Médio feitas por seu predecessor, Bill Clinton.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.