Edlib News Network/AP
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EUA mantêm rumo no Oriente Médio após eleição de presidente

Descontada a retórica na campanha eleitoral, candidatos têm propostas parecidas para a política externa na região

Roberto Simon,

03 de novembro de 2012 | 22h44

Vença o democrata que promete "liderar da retaguarda" na Primavera Árabe ou o republicano que bate o pé diante de um possível diálogo com o Irã, as diretrizes da diplomacia dos EUA para o Oriente Médio devem se manter nos próximos quatro anos. Por trás da retórica no calor da campanha eleitoral, as propostas concretas de política externa de Barack Obama e Mitt Romney para a região são muito similares, afirmam analistas.

Esse "consenso" é resultado de uma combinação de fatores: os problemas dentro de casa são mais urgentes, ambos os candidatos parecem dispostos a apostar em assessores técnicos para formular sua diplomacia e, por último, nas questões urgentes – da Síria ao Irã, de Israel ao Egito – não há grandes caminhos alternativos aos EUA.

Há três meses, Romney chegou a culpar Obama pela Primavera Árabe. Em entrevista ao jornal israelense de direita Hayom, o republicano argumentou que os levantes ocorreram porque seu adversário "abandonou a agenda da liberdade" que o governo George W. Bush tinha na região. "Obama não apoiou reformas (democráticas) que poderiam ter mudado o curso da história de uma maneira mais pacífica", acusou.

No entanto, ao ser questionado no último debate sobre temas específicos – como uma intervenção militar na Síria, um ataque ao Irã ou a relação com a Irmandade Muçulmana no Egito –, Romney evitou o tom belicoso, que afugentaria eleitores independentes. Quatro vezes disse "eu concordo com o presidente Obama" ao se explicar.

"Quando presidentes põem o pé na Casa Branca, as promessas de política externa feitas na campanha já ficaram pelo caminho", disse ao Estado George Harris, que trabalhou no Departamento de Estado por mais de 40 anos e chefiou a área de inteligência dedicada ao Oriente Médio. "Romney atuará com base nos conselhos de técnicos, assim como faz Obama. Ou seja: não há espaço para grandes mudanças."

Aaron David Miller, por duas décadas negociador americano no processo de paz entre israelenses e palestinos, escreveu, na semana passada, no New York Times, que "raras vezes desde o fim da Guerra Fria houve tanto consenso" na política externa.

Romney martelou na campanha que Obama "deu as costas" a Israel – ainda que o ministro da Defesa de Tel-Aviv, Ehud Barak, tenha afirmado recentemente "não se lembrar de alguém que fez tanto pela segurança israelense quanto o atual presidente", ao ampliar a cooperação no setor de inteligência.

Os israelenses de fato parecem preferir o republicano: dois em cada três votariam em Romney, segundo uma pesquisa da Universidade de Tel-Aviv, divulgada na semana passada. Curiosamente, entre judeus americanos a proporção é inversa: dois terços votariam em Obama.

"Vários presidentes republicanos exerceram uma pressão muito firme sobre Israel, como Richard Nixon e George H. Bush. A ideia de que republicanos são sempre ‘mais solidários’ aos israelenses é simplesmente errada", diz Itzhak Galnoor, cientista político da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Outro eixo da diplomacia americana para o Oriente Médio, a relação com o Egito, também não deve mudar de direção. Ao falar sobre a emergência do radicalismo islâmico na região no último debate, Romney colocou no mesmo balaio a Irmandade Muçulmana do Egito, que conquistou democraticamente a presidência em junho, e os guerrilheiros jihadistas aliados da Al-Qaeda, que passaram a controlar o norte do Mali.

No entanto, poucos acreditam que, se for eleito, o republicano estará inclinado a reformular a relação com o mais populoso país do mundo árabe.

"Com Obama ou Romney, a ‘linha vermelha’ que os EUA traçam ao novo governo egípcio será a mesma: não mexa nos acordos de paz com Israel e cumpra o que foi firmado", afirma Mohamed ElDahshan, economista do Cairo. "Os egípcios estão acompanhando de longe, porque as chances de haver uma guinada na posição dos EUA são remotas. Não é como em 2004, quando Bush enfrentou John Kerry."

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