EUA não desistem de ver Bustani fora da Opaq

Apesar de toda a pressão do governo do Estados Unidos, o embaixador brasileiro José Maurício Bustani conseguiu, pelo menos por enquanto, manter-se no cargo de diretor-geral da Organização para a Proscrição de Armas Químicas (Opaq, órgão da ONU), com sede em Haia.A polêmica, porém, pode estar longe do fim. Nesta sexta-feira, no último dia de reunião do Conselho Executivo da entidade, foi votada uma moção de não-confiança contra Bustani, como queria a Casa Branca.Mas a proposta, que resultaria no afastamento do brasileiro, reuniu apenas 17 votos contra Bustani, entre eles os dos Estados Unidos e Japão. O necessário para a sua destituição seria o correspondente a dois terços dos 41 membros integrantes do colegiado, cerca de 27 votos.A maioria dos países do Conselho se absteve, inclusive países latino-americanos, como Argentina. "O diretor estava chocado com a falta de apoio da América Latina", afirmou um funcionário da Opaq que participou das reuniões.Apenas cinco países votaram pela permanência de Bustani: Brasil, Cuba, Irã, Rússia e China. O número de abstenções, porém, acabou salvando o diplomata brasileiro. Segundo informações em Haia, o que estaria causando problemas para Washington seria a relutância de Bustani em aceitar que o Iraque seja atacado, sob a justificativa de estar desenvolvendo armas químicas.Mas, oficialmente, a Casa Branca se limita a acusar Bustani, que teria mais três anos de mandato, de má administração. Bustani concordou em que sua administração seja avaliada por um órgão independente. "O diretor não tem nada a esconder", afirma seu porta-voz, Gordan Vachon.Ele reconhece que a Opaq atravessa dificuldades financeiras, mas ressalta que os problemas são decorrentes da falta de verbas e não de má administração. Diante dessa situação, foi a vez de o Brasil apresentar uma proposta para a criação de um comitê extraordinário que pudesse solucionar os problemas por meio de diálogo e cooperação. A proposta brasileira, porém, não conseguiu os votos necessários e também foi rejeitada.Já no final da reunião, os diplomatas de Washington indicaram que vão fazer tudo o que for necessário para ver Bustani fora da Opaq. A Casa Branca apresentou um pedido formal para que seja convocada uma Conferência Especial para tratar do tema, reunindo os 145 países da Opaq, que então votariam sobre o futuro do brasileiro. Para que isso ocorra, porém, os Estados Unidos terão que conseguir o apoio de outros 48 países nos próximos 30 dias.Bustani ainda afirmou, por meio de seu porta-voz, que não renunciaria a pedido de um país. Ele acredita que sua resistência é necessária para proteger a independência de uma organização internacional. Uma das preocupações do brasileiro é que sua saída criasse um precedente para outras organizações.Sob o comando de Bustani, a Opaq realizou mais de 1,2 mil inspeções em 50 países. O objetivo da organização é evitar a produção e comercialização de armas químicas no mundo, e as investigações são feitas com o objetivo de identificar ameaças ou países que poderiam estar sendo usados como santuários por grupos terroristas.

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