EUA não esperavam divisão de Berlim

Novos documentos revelam bastidores da crise

Roberto Simon, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2011 | 00h00

O presidente John F. Kennedy recebeu a estranha notícia de que alemães orientais construíam um muro em Berlim na hora do almoço do dia 13 de agosto de 1961, enquanto descansava no rancho de sua família, em Hyannis Port. Ficou furioso. "E como nós não sabíamos de nada disso?", bradou Kennedy a assessores. Em seguida, o democrata - que havia sido eleito oito meses antes - ordenou uma investigação da CIA sobre os motivos da desinformação de seus espiões e diplomatas na Europa.

A fúria de Kennedy é um dos vários detalhes revelados ontem sobre esse tenso capítulo da Guerra Fria. Por ocasião do 50.º aniversário da construção do Muro de Berlim, a ONG americana National Security Archives publicou um pacote de documentos secretos - liberados pela Justiça americana - com telegramas e memorandos que circularam à época nos corredores do poder americano. Além de curiosidades, as informações "corrigem" alguns trechos importantes da versão oficial da história.

Um deles é que a maioria em Washington considerava positiva a construção da muralha. Embora os EUA condenassem publicamente a divisão da capital alemã, nos bastidores autoridades viam com bons olhos o isolamento físico dos alemães socialistas.

O próprio secretário de Estado dos EUA, Dean Rusk, acreditava que o muro de concreto e arame farpado cortaria o fluxo de refugiados em direção à Berlim capitalista, cuja economia ainda lutava para se erguer das ruínas do Terceiro Reich. Em um telegrama liberado, o embaixador americano na URSS, Llewellyn Thompson, não deixa dúvidas sobre a percepção americana: "Tanto nós quanto os alemães ocidentais consideramos que é uma vantagem de longo prazo a permanência dos refugiados na Alemanha Oriental", analisou.

O historiador que reuniu os documentos, William Burr, lembra que o início dos anos 60 era um momento de crescente tensão dentro do bloco soviético. "Em 1953, houve um levante na própria Alemanha Oriental e, em 1956, foi a vez da Hungria", afirmou ao Estado.

Segundo Burr, o secretário-geral do Politburo, Nikita Kruchev, inicialmente foi contra a ideia do líder alemão Walter Ulbricht de construir o muro. "Kruchev achava que isso seria publicidade negativa." Aos poucos, porém, o líder socialista foi persuadido. "Muitos médicos, estudantes e jovens trabalhadores estavam fugindo para o mundo capitalista. Para Kruchev, isso arruinaria a economia da Alemanha Oriental."

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