EUA não podem confiar na China

Pequim não pretende contrariar a Coreia do Norte e o Irã

Fred Hiatt, O Estado de S.Paulo

12 Maio 2010 | 00h00

THE WASHINGTON POST

Tendo afundado há pouco um navio da Marinha sul-coreana e tirado a vida de 46 marinheiros, o líder norte-coreano Kim Jong-il entrou no seu trem blindado particular na semana passada para uma visita à China. A interpretação que melhor se encaixa nos fatos suscita questões sobre a esperança do governo dos EUA de obter ajuda da China para conter a Coreia do Norte e o Irã.

A corveta sul-coreana Cheonan explodiu, partiu-se em duas e afundou na escuridão de 26 de março, deixando 46 dos 104 membros da tripulação mortos ou desaparecidos no mar. Oficialmente, a causa da explosão continua sendo investigada e o presidente sul-coreano, Lee Myung-bak, não fez nenhuma acusação. No entanto, os dois pedaços da embarcação foram resgatados e explosões internas foram descartadas como causa. Na semana passada, jornais sul-coreanos reportaram que vestígios de um torpedo haviam sido encontrados. A lista de suspeitos é curta.

Lee, em face da revolta dos sul-coreanos, trabalhou metodicamente na preparação do terreno para uma resposta multilateral centrada em sanções diplomáticas ou econômicas - uma retaliação militar só colocaria o risco de uma guerra mais ampla. Para isso, discutiu a questão com o presidente chinês, Hu Jintao, em Xangai, em 30 de abril.

Mistério. Autoridades sul-coreanas esperavam que a China ajudasse a enviar uma mensagem a Pyongyang de que afundar navios não é uma prática comum entre nações civilizadas. Em vez disso, três dias depois, e sem notificar a Coreia do Sul, a China desenrolou o tapete vermelho para Kim Jong-il.

A imprensa chinesa não teve permissão para cobrir a visita. No entanto, após Kim chegar em segurança em Pyongyang, a agência de notícias chinesa Xinhua reportou que Hu havia oferecido um banquete de boas-vindas ao norte-coreano. "Hu disse que a tradicional amizade entre a China e a República Democrática Popular da Coreia é um tesouro comum dos dois governos, partidos e povos", disse a Xinhua.

O que fazer com isso? Analistas que acreditam que a China tem uma influência moderadora sobre a Coreia do Norte se confortaram com a ideia de uma proposta de cinco pontos emitida por Hu, na qual ele pede que os dois países fortaleçam a coordenação em assuntos internacionais e regionais - talvez isso tenha assinalado a insatisfação da China pelo afundamento do Cheonan.

Segundo o jornal sul-coreano Chosun Ilbo, Kim partiu inesperadamente de Pequim, talvez após um acesso de raiva pelos chineses terem, quem sabe, expressado reservas sobre o caso. Por outro lado, o jornal também noticiou que Kim regressou com promessas de 100 mil toneladas de alimentos e US$ 100 milhões em ajuda da China.

Isso reflete o verdadeiro papel da China na Coreia do Norte. Apesar de todo o tempo gasto em negociações e da discussão sobre o novo papel da China como um ator responsável, sua principal realização até agora foi manter o regime de Kim Jong-il. Enquanto EUA, Coreia do Sul e Japão restringem sua ajuda à Coreia do Norte, a China preenche essa lacuna.

O programa nuclear norte-coreano não foi contido e não haverá consequências pelo afundamento do Cheonan. Tudo isso é importante para os 24 milhões que continuam presos no país-gulag de Kim. O quanto isso é relevante para Coreia do Sul e EUA é discutível. Vale apenas como indício de quanta ajuda o presidente Barack Obama pode esperar de Hu. Para quem queria apoio para frear Coreia do Norte e Irã, o abraço de Hu em Kim foi desalentador. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É EDITORIALISTA DO WASHINGTON POST

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